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PNEUMOLOGIA
Pneumonias atpicas
Maria de Ftima Bazhuni Pombo March

Embora as pneumonias agudas bacterianas sejam as mais freqentes em nosso meio, representando importante causa de morta-lidade em crianas de 0 a 5 cinco anos, pneumonias no bacterianas tambm acome-tem crianas, chegando a ser as mais prevalentes em pases desenvolvidos. Nestes, vrus e Mycoplasma pneumoniae j foram detectados em 17 a 31% dos casos de pneumonia em crianas no hospitalizadas.

Define-se pneumonias atpicas como as que no podem ser classificadas como bacterianas ou virais. Apresentam caractersticas clnicas, laboratoriais, radiolgicas e teraputicas peculiares, que as diferenciam das pneumonias bacterianas tpicas ou clssicas, como a pneumonia pneumocccica. Os principais agentes etiolgicos so o Mycoplasma pneumoniae (Micoplasma) e a Chlamydia pneumoniae (C. pneumoniae). Outros tambm devem ser considerados: Chlamydia psittaci, Coxiella burnetii e Legionella sp. A identificao destes agentes como causa de pneumonias atpicas relativamente recente. O Micoplasma foi identificado em 1962, a Legionella no final dos anos 70 e a C. pneumoniae em 1986.


Quadro: Agentes etiolgicos de pneumonia atpica em crianas, segundo a idade do paciente.

Agente
0 a 1 ano
1 a 5 anos
6 a 16 anos
Micoplasma
-
+ + +
+ + +
Chlamydia pneumoniae
-
+ + +
+ + +
Chlamydia psittaci
-
+
+
Coxiella burnetti
+
+
+
Legionella
+
+
+

Legenda: = sem casos relatados + = raro ++ = frequente +++ = muito frequente
Fonte: Hammerschlag,1996 (modificado)

Micoplasma
O M. pneumoniae um organismo pleomrfico que no possui parede celular, o que o torna insensvel aos antibiticos beta-lactmicos e outros que interferem na sntese da parede celular.

A pneumonia por Micoplasma acomete com maior freqncia as crianas maiores de 5 anos e rara em lactentes. Surtos epidmicos ocorrem em locais que favorecem o contato ntimo, como creches, escolas, famlias, acampamentos, dentre outros.

O quadro clnico caracteriza-se em geral por incio gradual, h dias ou semanas. Sintomas gerais como febre, mal-estar e dor de cabea so comuns. A tosse persistente, inicialmente seca e pode tornar-se produtiva ou paroxstica. Rush cutneo, faringite e miringite bolhosa tambm podem ocorrer.

ausculta respiratria podem ser detectados sibilos e estertores crepitantes.

Nas crianas com anemia falciforme, um agente freqentemente relacionado sndrome torcica aguda.

Os achados radiolgicos so variados, predominando o infiltrado intersticial. Caracte-risticamente estes achados correlacionam-se pouco aos achados clnicos.

O isolamento do Micoplasma atravs de cultura de secrees respiratrias no realizado rotineiramente para o diagnstico. Atualmente o PCR uma grande perspectiva, tendo demonstrado elevadas sensibilidade e especificidades, apesar do custo elevado. A sorologia o mtodo mais utilizado, obtendo-se crioaglutininas positivas (> 1:32) em aproximadamente 30 a 75% dos pacientes com pneumonia por Micoplasma. O ideal que seja feita dosagem pareada (aps quatro semanas da primeira). Admite-se que quanto maior o ttulo de crioaglutininas detectado, maior a gravidade do quadro pulmonar.

Dependendo do estgio da doena, o diagnstico diferencial com outras pneumonias bacterianas e virais torna-se difcil, pela inespecificidade de sinais e sintomas. Na prtica, quase sempre, o diagnstico de excluso, pela resposta inadequada aos antibiticos beta-lactmicos.

O tratamento muitas vezes emprico, pela falta de um mtodo rpido de diagnstico para identificao do agente. Eritromicina e tetraciclina (para maiores de 8 anos) so indicados h muitos anos. Hoje em dia, recomenda-se tambm outros macroldeos como azitromicina (10 mg/kg/dia, dose nica diria por 3 a 5 dias) e claritromicina (15mg/ kg/dia, 2 doses dirias), por 10 dias em mdia, pela facilidade de administrao. Estes antibiticos tambm so recomendados para o tratamento da pneumonia por C. pneumoniae.

Chlamidias
Chlamydia pneumoniae A C. pneumoniae, tambm conhecida como TWAR, um parasita intracelular obrigatrio, que transmitido por aspirao de partculas areas contaminadas e causa pneumonia em adultos e crianas, principalmente entre 5 e 15 anos. Evidencia-se maior transmisso do agente entre pessoas que habitam mesmo ambiente ou populaes confinadas. Observam-se infeces assintomticas (portador so) prolongadas, que contribuem para a transmisso e interferem na motilidade ciliar do epitlio respiratrio e na reatividade das vias areas.

O quadro clnico parecido com o da pneumonia por Micoplasma, com febre baixa, tosse seca, dor de cabea e mal-estar. A intensidade do quadro varivel e muitas vezes pode ser leve ou assintomtico.

Os achados radiolgicos no so caractersticos.

O isolamento da agente por cultura ou sua deteco atravs de testes sorolgicos pode ser realizado, mas estes so demorados e a produo de anticorpos pode no ser suficiente.

O tratamento , portanto, freqentemente emprico e baseado em critrios clnicos. As drogas indicadas so as mesmas da pneumonia por Micoplasma mas o tempo de tratamento deve ser mais prolongado, por 2 ou 3 semanas, exceto se usada a azitromicina; nesse caso, 2 ciclos de 5 dias cada um, com intervalo de 5 dias.

Chlamydia trachomatis
A C. trachomatis relaciona-se mais ao grupo das pneumonias afebris do lactente. A principal via de transmisso intraparto. A pneumonia ocorre entre a 3 e 16 semanas de vida e o quadro clnico caracteriza-se por tosse seca, persistente e eventualmente paroxstica (em staccato), com bom estado geral, taquipnia e temperatura subfebril. A evoluo clnica lenta, durando de 3 semanas a 3 meses.

A radiografia de trax mostra hiperinsuflao pulmonar e/ou infiltrados intersticiais, evidenciando-se estreitamento do mediastino superior (hipotrofia tmica).

A eosinofilia um achado laboratorial sugestivo.

O tratamento geralmente ambulatorial, com eritromicina (40mg/kg/dia 6/6 horas) por 10 a 14 dias.

Legionella sp.
A Legionella sp. um bacilo gram negativo que causa pneumonia ou doena sistmica febril. A maioria dos casos de doena causada pela Legionella pneumophyla. Este microorganismo pode ser encontrado em fontes aquosas, naturais ou artificiais, no meio ambiente: tubulaes de ar condicionado central, tanques, nebulizadores, bebedouros, dentre outros. A transmisso ocorre por inalao direta, atravs da gua ou aparelhos que contenham gua. A doena ocorre caracteristicamente sob a forma de microepidemias, envolvendo principalmente adultos.

O quadro clnico parecido com o das pneumonias bacterianas: incio sbito de febre, tosse, dor pleurtica, dispnia e dor abdominal. A insuficincia respiratria freqente.

A radiografia de trax mostra consolidao lobar, derrame pleural e raramente, cavitaes.

Testes sorolgicos so utilizados em epidemias e pouco estudados ainda em crianas.

Eritromicina droga de escolha. Podem ser utilizados tambm tetraciclina e sulfame-toxazol+ trimetoprim por 3 ou mais semanas. Quinolonas, azitromicina e claritromicina so as mais novas opes.

Outros agentes, raros, tambm podem estar envolvidos na etiologia das pneumonias atpicas. A Chlamydia psittaci causa pneumonia, geralmente intersticial, com febre, tosse seca, cefalia e mal-estar. A infeco ocorre pela inalao do microorganismo, cujos principais reservatrios so os pssaros. Os testes sorolgicos so pouco especficos. O tratamento indicado eritromicina por at 10 a 14 dias aps a defervecncia do quadro. O Ureaplasma urealyticum transmitido ao recm nascido pelo canal de parto de mulheres colonizadas, colonizando-o sem causar doena ou gerando doena pulmonar crnica ou pneumonia neonatal fatal. Testes sorolgicos como pesquisa de anticorpos homlogos e teste de inibio metablica podem identificar o agente. A eritromicina droga de escolha.

Finalizando, podemos afirmar que muitas vezes o diagnstico de pneumonias atpicas na criana emprico, baseando-se na prtica, em dados clnicos, epidemiolgicos e radiolgicos. A falta de resposta penicilina ou derivados em escolares com quadro respiratrio persistente, associado histria de contato com pessoas com quadro semelhante e infiltrados radiolgicos, sugerem o diagnstico e a orientao teraputica com macroldeos. No Servio de Pneumologia Infantil do IPPMG-UFRJ, foram estudadas 18 crianas com quadros de evoluo lenta ou repetidos de infeco respiratria do trato inferior. Todos apresentavam radiografias de trax alteradas com imagens sugestivas de condensao ou infiltrado intersticial e j tinham recebido antibiticos como amoxicilina, cefalosporina ou sulfametoxasol+trimetropim. O tratamento realizado com macroldeo mostrou bons resultados em 16 casos.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
1. Cjyde Jr WA- Infections fo the respiratory tract due to Mycoplasma pneumoniae - In: Kendig Jr; Chernick V. Disorders of the respiratory tract in children. 5 ed, Philadelphia: Saunders, 1990, p. 403-411.
2. Corra J, Corra VLF- Legionelose- atualizao- J Pneumol, v 22, n 2, p 77-86, 1996.
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4. Hammerschlag MR- Atypical pneumonias in children- Adv Pediatr Infect Dis, v 10, p 1-39, 1995.
5. Latham-Sadler BA, Morell VW- Viral and atypical pneumonias- Prim Care, v 23, n 4, p 837-48, 1996.
6. March MFBP, SantAnna CC, Ferreira S. Mello MGMO, David JSP. Claritromicina no tratamento de infeces respiratrias do trato inferior. Anais do VIII Congresso Brasileiro de Pneumologia Peditrica. Salvador, Ba, 1999.



Bronquiolite
Jos Augusto Rubin Moura

INTRODUO.
Bronquiolite a denominao usual da sndrome clnica caracterizada por respirao rpida, retraes torcicas e tosse, associada a evidncias de infeco viral prvia das vias areas superiores. O quadro clnico geralmente vem acompanhado de sibilncia expiratria. Alguns autores limitam o diagnstico aos menores de 12 meses , mas a maioria inclui as crianas at dois anos de idade. A doena apresenta elevada morbidade, apesar de baixos ndices de mortalidade. Portadores de imunodeficincia, doena pulmonar crnica da prematuridade e cardiopatias congnitas tm risco aumentado. Os estudos prospectivos tm revelado aumento significativo da prevalncia de sintomas respiratrios em crianas que foram admitidas com diagnstico clnico de bronquiolite viral aguda (BVA). Embora estes sintomas, restritos ao lactente jovem, no sejam graves o suficiente para levar admisso hospitalar, esto claramente associados com morbidade respiratria aguda e crnica.

CONSIDERAES ETIOPATOGNICAS.
A partir da dcada de 70, o vrus sincicial respiratrio (VSR) tem sido o principal agente encontrado. Existem evidencias da hetero-genicidade do VSR, mas todas as cepas esto muito relacionadas e do ponto de vista epidemiolgico se comportam como serotipo nico. Mais recentemente, dois subgrupos maiores foram identificados: A e B, divididos em seis e trs subgrupos, respectivamente. Durante uma epidemia, os dois subgrupos tendem a cocircular, assim como seus subgrupos, e esta heterogenicidade responsvel pelos surtos anuais. O VSR causa infeco em todas as partes do mundo, com surtos anuais sistemticos. O VSR pode provocar infeco em qualquer faixa etria, mas seu grande impacto nos lactentes jovens, sendo responsvel pela maioria dos casos de bronquiolite viral aguda (BVA) e pneumonia nesta faixa etria. Em menores de 2 anos, o VSR o principal responsvel pela asma-vrus induzida. Freqentemente, a diferenciao entre pneumonia , bronquiolite e asma meramente arbitrria. A inflamao das vias areas, provocada pelo VSR, pode induzir obstruo resultante de hipersecreo de muco, presena de exsudatos nas vias areas, edema de mucosa, e graus variados de broncoespasmo independente do processo imunolgico subjacente.

Determinadas caractersticas anatomo-funcionais prprias dos lactentes jovens, como aumento de resistncia das vias areas e a insuficincia de ventilao, podem contribuir para a obstruo, formao de atelectasias e distrbios na troca gasosa.

APRESENTAO.
A infeco raramente assintomtica, porm a apresentao clnica em lactentes menores de 4 meses pode ser subclnica, com sintomas inespecficos ou mesmo manifestao de apnia. Estes lactentes podem apresentar apnia inicialmente e progredir para bronquiolite, ou apresentar apnia como nica manifestao da infeco. A apnia pode ser causa de morte sbita. Apenas lactentes acima desta faixa etria desenvolvem o quadro clnico tpico. Para a maioria do infectados os sintomas so leves; apenas sinais de infeco de vias respiratrias superiores, mas cerca de 10% desenvolvem BVA. Esta freqncia varivel, dependendo dos critrios diagnsticos utilizados, se abrangentes ou restritos. A febre baixa comum, mais freqente no incio do quadro, geralmente no estando presente na admisso. A dificuldade de alimentao resultante de hipoxia comum. Sinais fsicos decorrentes de hiperinsuflao do trax esto tipicamente presentes, alm de rebaixamento do fgado e retrao subcostal. Ausculta pulmonar revela crepitaes generalizadas bilaterais, que podem estar acompanhadas por sibilncia. Na maioria dos casos, a bronquiolite leve o bastante para ser controlada ambulatorialmente, mas entre 0,5-1,5% sero admitidos no hospital. Os lactentes de 1-4 meses apresentam risco aumentado de infeco grave e hospitalizao. A disseminao pelas crianas hospitalizadas continua em altos nveis mesmo aps a melhora. Crianas menores de 12 meses continuam eliminando o vrus por at nove dias. Pacientes com Sndromes de imunodeficincia continuam eliminando o vrus por mais de 12 meses.

DIAGNSTICO
Rx de trax: As alteraes radiolgicas so inespecficas e incluem hiperinsuflao com rebaixamento do diafragma, abaulamento do espao retroesternal e alargamento dos espaos intercostais. Freqentemente ocorrem imagens de opacidades, principalmente a nvel de LSD, geralmente devidas a colapsos subsegmentares. Infiltrados peri-brnquicos sugestivos de pneumonia intersticial ocorre na maioria dos lactentes. Espessamento e derrame pleural so raramente observados.

O diagnstico clnico pode ser rapidamente confirmado pela identificao ou confirmao do VSR ou outra virose em aspirados nasofarngeos ou lavado nasal, usando mtodos de Imunofluorescncia ou Elisa. Resultados negativos no excluem o diagnstico. Lactentes jovens geralmente apresentam ttulos baixos. Necessita-se de soro convalescente para confirmao do diagnstico sorolgico. A realizao de cultura tem aplicao clnica limitada devido labilidade da amostra, necessidade de manuseio cuidadoso e demora de mais de uma semana para confirmao da doena.

DIAGNSTICO DIFERENCIAL
Se a doena grave, prolongada ou atpica importante a considerao de outros diagnsticos primrios ou condies associadas, como fibrose cstica, sndromes aspirativas, malformaes pulmonares congnitas e cardiopatias. Pneumonia intersticial e bronquiolite obliterante resultantes de infeco por adenovrus podem apresentar de incio quadro clnico semelhante a bronquiolite pelo VSR. Pneumonias virais podem apresentar algumas das caractersticas da bronquiolite. A distino deve ser feita em bases essencialmente clnicas, desde que 20% dos pacientes com bronquiolite apresentem reas de consolidao ou colapso sub-segmentar ao exame radiolgico. Hiperinsuflao ao Rx comum na bronquiolite e suporta o diagnstico.

TRATAMENTO
1. GENERALIDADES
A monitorizao e os cuidados suportivos continuam como os pontos fundamentais do tratamento. A doena autolimitada para aqueles que no apresentem condies de risco. A monitorizao deve ser dirigida, principalmente, para a deteco de apnia, hipoxia e insuficincia respiratria. A avaliao clnica da hipoxemia difcil, tendo a oximetria de pulso o papel central na avaliao da hipoxemia e subsequente recomendao de oxigenoterapia.. Os cuidados suportivos devem ser direcionados para o alvio da hipoxemia, prover hidratao adequada e prevenir a fadiga muscular atravs de manipulao mnima e suporte respiratrio. A monitorizao dos gases arteriais usualmente requerida na considerao de ventilao mecnica.

So indicao de hospitalizao as seguintes situaes: baixa idade (1-4 meses) e presena de fatores de risco como cardiopatias, doena pulmonar neonatal crnica dependente de O2, imunodeficincias, fibrose cstica e prematu-ridade extrema.

2. OXIGENOTERAPIA
O oxignio o deve ser administrado umidificado. Taxas de FI02 de 35% -40 % corrigem a hipoxemia arterial na maioria dos casos. O oxignio deve ser dado sem temor de depresso respiratria significativa para os que no apresentam histria de doena pulmonar obstrutiva crnica. Entretanto, um nmero crescente de lactentes com displasia broncopulmonar apresentam risco aumentado para a infeces virais desta natureza. Alguns deles apresentam reteno crnica de C02 compensada. A piora na troca gasosa pode torn-los gravemente hipoxmicos. A administrao de oxignio pode aumentar a reteno de CO2. A febre, resfriamento e calafrios podem contribuir para a hipoxemia.

3. HIDRATAO
Alguns lactentes esto desidratados e com acidose metablica admisso. A hidratao endovenosa deve ser cuidadosa. Admite-se que presses intrapleurais altamente negativas para vencer a obstruo das vias areas, exigem mais do ventrculo esquerdo. Desta forma, a maior negativao da presso intrapleural transmitida para o interstcio, aumentando o acmulo de lquido nos pulmes. Alm disso, ocorre secreo inapropriada do hormnio anti-diurtico (HAD), evidenciada por aumento osmolaridade urinria, por osmolaridade srica diminuda e por nveis plasmticos elevados de HAD. A restrio hdrica pode ser necessria, geralmente dos valores de manuteno em torno de 2/3 dos usuais.

4. RIBAVIRINA
Trata-se de uma droga antiviral anloga da guanosina, de amplo espectro, que atua, provavelmente, pela inibio da sntese protica viral. A dose diria, administrada sob forma de aerossol com dispositivo especial, demanda de 12 a 18 horas. Englund 1 preconiza o esquema de altas doses, administradas de forma rpida 2-3 vezes ao dia. A droga pode ser usada em circuitos de ventilador com cuidado, pois pode causar bloqueio de vlvulas devido a sua cristalizao. Efeitos colaterais, como rasch e broncoespasmo, so incomuns.

O comit de doenas infecciosas da AAP 2 recomendava a utilizao em lactentes de alto. Posteriormente, essa entidade recomendou que a medicao deveria ser usada em todos os pacientes de alto risco e nos gravemente acometidos, que inclua todos com saturao abaixo de 90%. Estas recomendaes geraram muitas crticas 3 e ainda hoje existe muita controvrsia com relao a estas indicaes. A mesma AAP recomendava o uso no CTI, para pacientes recebendo ventilao mecnica 4 , mas os estudos relacionados foram controversos. Um dos estudos 5 que mostrou resultados positivos utilizou gua destilada como diluente do placebo, o que pode ter contribudo para o maior perodo de ventilao observado neste grupo.

Parece ser bem razovel na luz das evidncia atuais de considerar a indicao principal para pacientes de extrema gravidade e uma indicao menor para os de alto risco, principalmente os com imunossupresso.

5. BRONCODILATADORES
Uma das reas de maior indefinio no tratamento da bronquiolite se refere a eficcia dos broncodilatadores. As controvrsias provavelmente resultam dos diferentes critrios utilizados para o diagnstico da doena. Se os critrios utilizados so mais restritivos no h suporte na literatura para o uso rotineiro de broncodilatadores. Vrios estudos no demons-traram qualquer benefcio decorrente do uso de broncodilatadores simpaticomimticos 6,7,8,9 podendo em alguns casos ter efeito dele-trios 10,11 . De forma similar no existe evidncia convincente de que outros broncodilatadores como teofilina 12, 13 e brometo de ipratropium 9,14 sejam igualmente eficazes. Os estudos que suportam o uso de broncodilatadores 16, 17 optam, geralmente, por critrios mais amplos de diagnstico da bronquiolite, incluindo todos os episdios de primeira sibilncia no lactente. Estes estudos geralmente incluem um grupo considervel de lactentes maiores de 6 meses, apesar de ser no grupo de menores de 6 meses que acontecem os casos graves de BVA. Admite-se para os maiores de 6 meses, na situao de difcil distino entre bronquiolite e sibilncia induzida por vrus, uma prova teraputica com a utilizao de bronco-dilatadores. Alguns estudos bem conduzidos tm avaliado a administrao de epinefrina racmica com observao de melhores resultados do que soluo salina ou albuterol na avaliao de parmetros como saturao de oxignio, score clnico e/ou resistncia pulmonar .

VENTILAO ASSISTIDA
Indicaes de ventilao mecnica variam de unidade para unidade, mas de modo geral, a intubao necessria nos casos de apnia recorrente com desaturao de oxignio significativa ou insuficincia respiratria com acidose persistente ou hipoxemia apesar de alta concentrao de oxignio. Um aumento dos nveis de PCO2 acima de 7-8 kPa visto por alguns como indicativo de intubao, apesar de outros estudos demonstrarem tolerncia com nveis significativamente elevados sem levar a fadiga, acidose ou hipoxemia no corrigvel. Embora altas presses possam ser necessrias, deve-se manter a presso mnima necessria para manter oxigenao adequada com pH arterial acima de 7,2. Este esquema prefervel em vez da utilizao de parmetros elevados de ventilao mecnica para correo dos nveis de CO2. Uso de freqncia baixa com tempo expiratrio prolongado so geralmente necessrias em lactentes com insuficincia respiratria. A ventilao mecnica devem ser suspensa assim que possvel.

OUTRAS DROGAS
Antibioticoterapia: antibiticos esto raramente indicados, pois a infeco bacteriana secundria parece ser incomum. Entretanto, infeces associadas com outras viroses, chlamydia e bacterianas podem ocorrer, de forma que no irracional a administrao de antibiticos para aqueles muito graves ou infeco com caractersticas atpicas. Reconhece-se que a infeco por VSR pode apresentar-se sob a forma de doena septicmica ou sob forma de apnia, sendo recomendado antibioticoterapia nestes casos.

Corticosterides. Os estudos publicados falham sistematicamente em mostrar qualquer benefcio com o uso de corticosterides sistmicos ou inalados (budesonida).

Imunoglobulina: o uso de imunoglobulina endovenosa em um nico estudo provou resultados similares a ribavirina (melhora mais rpida da oxigenao, sem efeito na eliminao do vrus e no tempo de hospitalizao. Alguns estudos avaliando o papel de imunoglobulina humana purificadas com ttulos elevados de anticorpos neutralizantes anti-VSR, e estudos em animais sugerindo que a necessidade de doses menores de imunoglobulina quando utilizada a via tpica.

PREVENO
Os aspectos preventivos principais se baseiam nas medidas que reduzam a inoculao da equipe hospitalar e a transmisso direta do vrus para outros pacientes. As vacinas de vrus inativados pela formalina produziram resultados alarmantes na dcada de 60, pois foram seguidas da manifestao de casos graves. Os resultados com as vacinas com vrus atenuados ainda so inconclusivos. O uso de Imunoglobulina RSV-especfica parece promissor.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
01. Englund JA, Piedra PA,Ahn YM,Gilbert DC, Hiatt P: High-dose, short duration ribavirin aerosol therapy compared with standard ribavirin therapy in children with suspected respiratory sincytial virus infections, J Pediat 125:635-641,1994
02. American Academy of Pediatrics Committe on Infectious Disease: Ribavirin therapy of respiratory syncytial virus, Pediatrics 79:475- 478,1987
03. Wald ER,Dashefsky B: Ribavirin: Reed Book Committe recomendations questioned, Pediatrics 93:672-673,1994
04. American Academy of Pediatrics Committee on Infectious Diseases: Use of ribavirin in the treatment of respiratory syncityal virus infection, pediatrics 92:501-504,1993
05. Smith DW, Frankel LR, Mathers LH, Tang AT, Ariagno RL, prober CG: A controlled trial of aerosol ribavirin in infants receiving mechanical ventilation, N Eng J Med 325:24-29,1991
06. Phelan PD,Williams HE: Sympathomimetic drugs in acute viral bronchiolitis: their effect in pulmonary resistance, Paediatrics44:493-497,1969


Fibrose Cstica (Mucoviscidose)
Francisco J. Caldeira Reis

1 - INTRODUO
Fibrose cstica (FC) ou Mucoviscidose, patologia autossmica recessiva, uma das doenas genticas letais mais comuns dos caucasides: um em cada 3.400 nascidos vivos tem FC e um em cada 25 portador do gene. Este gene encontrado muito menos freqentemente nos outros grupos raciais. A doena multisistmica e decorre da mutao no gene que codifica a produo de uma protena - a CFTR (Cystic Fibrosis Transmembrane Regulator). Em 1989 foi descrito este gene anmalo responsvel pela FC, mapeado em um nico locus no brao longo do cromossomo 7. A falta (D) de trs pares de bases, que constituem a fenilalanina (F), na posio 508 da seqncia de aminoacidos da protena -DF508- a mutao mais freqente e ocorre em aproximadamente 70% dos cromos-somos dos pacientes, nos pases anglo-sax-nicos. Nos pases latinos: Europa Setentrional e na Amrica Latina, a mutao DF508 ocorre aproximadamente em 50% dos cromossomos dos pacientes caucasides destas regies.

2 - EPIDEMIOLOGIA
A sobrevida mediana dos pacientes com FC tem aumentado gradualmente: em 1990, a sobrevida mediana foi de quase 28 anos, nos Estados Unidos e no Canad. No Brasil no dispomos ainda de dados estatsticos confiveis, porm, em Minas Gerais, a estimativa de sobrevida para 1990 foi de aproximadamente 12 anos de idade. O aumento da sobrevida se consegue com diagnstico precoce da doena, quando se identificam as suas formas mais leves. Com o tratamento inicial mais agressivo pode-se evitar a colonizao crnica pela P. aeruginosa. Os pacientes que nasceram na dcada de 90 tm chance de sobrevida de quase 50 anos de idade na Dinamarca.

3 - FISIOPATOGENIA
O gene corresponde a um complexo protico situado na membrana celular que regula o transporte de ons (Cl e Na + ) para dentro e para fora da clula: corresponde, pois, a um canal inico.

Alm do bloqueio da excreo de cloro, pelo canal de cloro, existe tambm o aumento, em at trs vezes, na reabsoro de sdio atravs do epitlio apical das vias areas dos pacientes com FC. O aumento da reabsoro de sdio e
a diminuio na excreo de cloreto reduziro a quantidade de gua no fludo periciliar. O fludo se torna hiperosmolar e isto faz com que as mucinas se tornem espessas e desidratadas, explicando o porqu da viscosidade elevada das secrees respiratrias. Estas secrees espessas impedem a ventilao alveolar (obstruo bronquiolar), facilitando a colonizao crnica pelas bactrias.

Deve-se notar que a disfuno nos ductos sudorparos diferente das alteraes presentes no epitlio respiratrio. O epitlio do ducto sudorparo tem uma permeabilidade reduzida para absoro de cloreto; assim o sdio tambm no reabsorvido para manter o eqilbrio inico. Esta anormalidade do eqilbrio inico leva diretamente ao aumento da concentrao de cloreto (e de sdio) no suor.

4 - MANIFESTAES CLNICAS
A doena acomete vrios rgos, principalmente os pulmes, os seios paranasais e, em seguida, o aparelho gastrintestinal, o sistema hepatobiliar, glndulas sudorparas e o aparelho reprodutor. A maioria dos pacientes morre de problemas respiratrios.

4a - PROBLEMAS PULMONARES
As vias respiratrias so acometidas em mais de 90% dos pacientes com FC. Acometimento pulmonar e suas complicaes so as causas mais comuns de morte prematura. As vias areas inferiores dos pacientes so inicialmente colonizadas por Staphylococcus aureus e, mais tarde, na vida, pela variante mucide de Pseudomonas aeruginosa, que so difceis de serem erradicadas, determinando, com o tempo, colonizao crnica.

As bactrias se instalam na mucosa respiratria por adeso ao epitlio brnquico; a seguir se multiplicam, levando colonizao, sem ainda atingir a submucosa: nesta situao, a cultura de escarro pode ser positiva; em seguida, penetrando mais, as bactrias ultrapassam a barreira epitelial e elicitam os mecanismos imunolgicos sistmicos causando uma inflamao crnica. Aparecendo as manifestaes clnicas, com localizao variada do processo patolgico, ocorre a doena. A infeco crnica acarreta sinusite e bronquites crnicas, alm de bronquectasias, fibrose pulmonar difusa, insuficincia respiratria aguda e crnica, com hipertenso pulmonar e cor pulmonale. A radiografia torcica mostra condensaes, geralmente no lobo superior direito, mas com a progresso da doena, as alteraes encontram-se difusas. O distrbio respiratrio pode ser agravado pelo apare-cimento de hiper-reatividade das vias areas (diagnstico diferencial com asma de difcil controle e bronquiolite). Hemoptise, pneu-motrax e aspergilose broncopulmonar alrgica so complicaes raras.

4b - PROBLEMAS DIGESTIVOS
A principal manifestao digestiva no recm nascido o leo meconial ou qualquer tipo de obstruo intestinal.

M absoro intestinal de gorduras, por falta de produo de enzimas pancreticos, ocorrem em 80%-85% dos pacientes. Desenvolvem diabetes melitus 5%-10% dos pacientes de idade mais avanada. Outros problemas gastro-intestinais incluem: equivalente ileal, refluxo gastroesofgico e prolapso retal. Doenas hepatobiliares clinicamente significativas ocorrem em 5% dos casos, na forma de cirrose focal ou biliar. Pode haver hipertenso portal com varizes esofageanas.

4c - OUTRAS MANIFESTAES Homens com FC so estreis em 98% dos casos, devido azoospermia, como conse-quncia de obstruo do canal deferente. A infertilidade na mulher com FC menos grave -30% a 40% - das pacientes com FC podem engravidar. O muco cervical espessado pode impedir a penetrao dos espermatozides. Historicamente, a limitao pulmonar pode refletir na gravidez, mas, com a melhoria do tratamento pulmonar, mais de 100 mulheres com FC j tinham engravidado em 1989, a maioria das quais teve bebs viveis e sadios.

A artropatia, de origem imunolgica, pode ser observada em 9% dos pacientes FC mais velhos. Responde bem medicao anti-inflamatria no esteride, o que no acontece na osteoartropatia hipertrfica (4% dos casos), que deformante e no se sabe a causa.

5 - DIAGNSTICO
Os critrios tradicionais utilizados at hoje para o diagnstico de FC so:
1 - problemas respiratrios obstrutivos crnicos e de evoluo progressiva, ou
2 - problemas gastrintestinais, hepticos ou pancreticos crnicos, ou
3 - histria familiar de FC
, sempre acom-panhados de
4 - valores elevados de cloretos (e/ou sdio) no suor (acima de 60 mEq/l), em pelo menos duas amostras, com mais de 100 mg de suor cada e em ocasies diferentes.

O diagnstico diferencial vai depender da idade e do modo de apresentao da doena. Os diagnsticos mais comuns incluem: deficincia do desenvolvimento fsico: baixo ganho poderal ou estatural, bronquiolite ou bronquite, asma e sinusite de difcil controle, tuberculose, diarria crnica (doena celaca), CIDA/AIDS.

O diagnstico gentico relativamente restrito, na FC, por existirem mais de 800 mutaes j descritas na literatura e pela baixa prevalncia da mutao mais importante - DF508 - no nosso meio: 47% nos FC caucasides.

6 - TRATAMENTO
Avaliao geral:
O principal motivo da centralizao do atendimento aos pacientes com Fibrose Cstica e da normatizao da conduta melhorar a sua sobrevida. Outro fator o atendimento por meio de equipe multiprofissional nos centros regionais especializados no diagnstico e tratamento da doena. Geralmente esta equipe composta por mdicos, enfermeiras, assistente social, nutricionistas, fisiotera-peutas e terapeuta ocupacional e psiclogos. A avaliao do paciente com Fibrose Cstica dever ser mensal nos casos mais graves e, no primeiro ano de vida, trimestral nos casos moderados e, no mnimo, anual nos casos leves ou oligosintomticos.

Em cada consulta deve -se observar o seguinte:
Avaliao clnica adequada: nutricional e respiratria;
Realizar saturimetria;
Cultura do escarro, quando houver secreo; em crianas menores fazer aspirado traqueal (fisioterapeuta);
Radiografia de trax: PA e lateral: nas exacerbaes e, pelo menos, uma vez ao ano;
Avaliao hematolgica e heptica: anual, no mnimo;
Protenas totais e fracionadas e imunoglo-bulinas, na primeira consulta;
Avaliao da funo pulmonar pela espi-rometria, quando a criana for maior de 6 anos de idade (no mnimo uma vez ao ano).

Avaliao Nutricional:
A necessidade calrica diria de 130% a 170% das necessidades normais. Deve ser uma dieta hipercalrica, sem restries alimentares, com elevado teor de protenas e contedo normal ou aumentado de gorduras. Para que se consiga a absoro adequada dos alimentos, h neces-sidade de se usar enzimas pancreticas de liberao intestinal. Estas enzimas devem ser usadas em doses individualizadas, de tal forma que o paciente apresente dejees (fezes consis-tentes e sem gordura visvel) uma ou no mximo duas vezes ao dia. Os grnulos das enzimas so de liberao entrica, no podem ser mastigados e so dados junto com os alimentos. Crianas maiores podem engolir as cpsulas. A complementao polivitamnica (ADEK) deve ser feita de rotina nos pacientes com insuficincia pancretica, no dobro da dose usual diria. A vitamina E pode ser dada semanalmente e a vitamina K usada em alguns casos. O ferro deve ser dado como profiltico em crianas menores de dois anos ou quando houver exame compatvel com anemia ferropriva. Persistindo os problemas nutricionais apesar destas medidas, devemos avaliar as seguintes opes: sonda gstrica ou enteral, para alimentao noturna; gastrostomia ou jejunostomia para alimentao contnua; adio de alimentos de elevado teor calrico; nutrio parenteral parcial ou total. Os triglicrides de cadeia mdia (TCM) devem ser acrescentados dieta, caso haja necessidade. A cada consulta devemos calcular as calorias ingeridas pelo paciente tentando equilibrar a sua dieta. Deve-se ainda registrar, em cada consulta, o peso, a estatura, e o permetro ceflico, em grfico apropriado (M.Sade).

Avaliao Respiratria:
Secrees:

As secrees respiratrias dos pacientes com FC so muito espessas e difceis de serem eliminadas. Por isso, a fisioterapia muito importante para mobilizar e eliminar essas secrees, ensinar o paciente a tossir e respirar de maneira eficaz. Deve ser iniciada logo aps o diagnstico e mantida em escala mnima (uma vez ao dia), mesmo se o paciente estiver bem. Pacientes que produzem escarro devem ser submetidos fisioterapia de 2 a 3 vezes ao dia. Durante as visitas clnicas, devem ser checados os exerccios bsicos pelo fisioterapeuta. Os exerccios fsicos devem ser incentivados, pois auxiliam a eliminao das secrees pulmonares e estimulam os msculos respiratrios. Devem ser feitos de maneira regular, sendo os mais indicados a natao e a corrida, respeitando-se o limite fsico de cada paciente.

Devido ao grande contedo de DNA nas secrees inflamatrias dos pacientes com FC, tem-se utilizado a DNA se como mtodo eficaz de melhorar a obstruo brnquica.

Infeco/ Inflamao:
Refere-se especialmente ao tratamento adequado das infeces respiratrias. A identificao da primeira colonizao por S. aureus ou P. aeruginosa essencial para se conseguir a erradicao das mesmas, nos meses subsequentes: ou seja, tentar evitar a colonizao crnica. O isolamento de coortes por bactria colonizada importante para no haver infeco cruzada. Nas exacerbaes devem-se usar os antibiticos de acordo com o resultado da cultura de escarro.

As principais bactrias patognicas para os pacientes com FC so: Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa - cepa mucide, Burkholderia cepacea e Stenotrophomonas maltophilia.

A conduta ideal frente primeira cultura de escarro com P. aeruginosa: INTERNAO, na tentativa de erradicao da mesma com tratamento endovenoso por 21 dias com Ceftazidime + Amicacina. Deve ser feito controle clnico e bacteriolgico mensal nos prximos 6 meses. Persistindo a cultura positiva, durante este perodo, usar Ciprofloxacina VO+ Amicacina inalatria a cada ms.

Em caso de colonizao crnica devida a P. aeruginosa, programar internao eletiva, 3 a 4 vezes por ano, para aplicao de antibiticos por via endovenosa, por 14 dias, para tentar diminuir a colonizao e a multiplicao bacteriana e, com isto, melhorar a sobrevida. A alternativa vlida o uso de Ciprofloxacina VO+ Amicacina inalatria por 21 dias.

As exacerbaes da infeco pulmonar crnica devem ser tratadas com fisioterapia respi-ratria intensiva, antibiticos, de preferncia por via endovenosa, alm de broncodilatadores. Hemoptise na FC rara, mas pode ser macia e a funo pulmonar diminuda pode limitar as opes teraputicas. Entubao endotraqueal com tamponamento pode ser utilizada como medida temporria. Embolizao da artria brnquica d bons resultados, porm em curto espao de tempo. Pneumotrax ocorre em 23% dos pacientes e recorre em 70% dos casos. Obliterao do espao pleural para prevenir a recorrncia recomendada. O procedimento de escolha depender do potencial do paciente de receber transplante de pulmo.

Sinusites ocorrem em cerca de 90% dos pacientes com FC e polipose nasal em 20%. Tratamento feito com antibiticos e com esterides inalados mas a drenagem cirrgica pode ser necessria.

Caso hajam manifestaes respiratrias do tipo bronquiolite de repetio ou asmatiforme, tentar beta-2 adrenrgicos e, se necessrio, corticides por via inalatria ou por via oral, em dias alternados, na dose de 1 mg/kg, no perodo mximo de 6 meses, em caso de resposta evidente. Em crianas maiores, avaliar resposta broncodilatadora com espirometria.

Caso haja refluxo gastro esofgico (RGE) associado: usar posio elevada de 45 graus, procinticos digestivos (domperidona, bromoprida ou cisaprida) e anticidos (cimetidina).

Imunizaes:
Seguir o calendrio vacinal rotineiro. Sempre que possvel, incluir imunizao contra hemfilo tipo B, pneumococos (23 serotipos) e vrus da influenza A e B (antigripal).

7 - PERSPECTIVAS
At 1998, mais de 400 pacientes com Fibrose Cstica, no mundo todo, sofreram transplante unilateral, bilateral seqencial de pulmo ou, em bloco, de corao e pulmo, com sobrevida aproximada de 5 anos em 50% dos casos.

Novos tratamentos esto sendo estudados e propostos, incluindo antiproteases, amilo-rida (bloqueador do canal de sdio) associada a UTP ou ADP, alm de DNAse, um agente mucoltico. A insero da CFTR corrigida em animais, usando adenovirus modificado, com efetiva transcrio gnica sugere que a terapia gentica pode ser possvel no futuro.

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OTORRINOLARINGOLOGIA
RINITES
Marcelo Peixoto

As rinites so as alteraes inflamatrias da mucosa nasal. Representam uma das manifes-taes clnicas mais comuns em pediatria. Sendo o nariz a porta de entrada para todo o ar inspirado, a mucosa nasal entra em contato com uma enorme variedade de partculas e microor-ganismos que determinam grau varivel de resposta a sua presena. A mucosa nasal tem a funo de filtrar, purificar, aquecer e umidificar o ar inspirado, caractersticas essenciais para o mecanismo respiratrio. Quando entra em contato com um agente patognico, a mucosa nasal responde com o aumento de sua funo, tornando-se hipertrofiada e hipersecretora, determinando o aparecimento dos sintomais habituais das rinites: obstruo nasal, rinorria, prurido e crises esternutatrias (espirros).

Alm dos sintomas especficos, as manifes-taes das rinites refletem as alteraes da qualidade do ar inspirado, levando baixa oxigenao dos tecidos, sono difcil, cansao, irritabilidade e dificuldade de concentrao. A respirao bucal decorrente da obstruo nasal leva inspirao de ar no preparado, frio e seco, causando o ressecamento da cavidade oral, faringe e via respiratria inferior, aumentando tambm a suscetibilidade destas regies aos processos inflamatrios. A obstruo nasal e a conseqente respirao bucal prolongada levaro tambm a alteraes importantes no cresci-mento da face, pela diminuio do estmulo ao crescimento do tero mdio em relao ao tero inferior, causando alteraes na respirao, desenvolvimento da arcada dentria, mastigao, deglutio e fonao.

Classificao
As rinites podem ser classificadas conforme a durao dos sintomas, em agudas e crnicas, ou conforme sua etiologia, em infecciosas, alrgicas e medicamentosas. Existem ainda diversos tipos de rinites relacionadas a doenas especficas. As rinites infecciosas geralmente so agudas, apresen-tando evoluo benigna. As rinites alrgicas cursam com alterao crnica da mucosa nasal, e se manifestam por perodos de agudizao associados a uma fase crnica de sintomas mais ou menos evidentes.


RINITES INFECCIOSAS

Introduo
As rinites infecciosas podem ser classificadas em virais ou bacterianas. A doena geralmente tem incio agudo. Os sintomas das rinites virais variam de acordo com o agente patognico ( Rinovrus, Influenzae, Parainfluenzae, entre outros). O resfriado comum o quadro viral respiratrio mais freqente na infncia; a populao infantil apresenta em mdia de 3 a 6 episdios de resfriado comum ao ano. A doena auto-limitada e os sintomas, caracterizados por febre baixa, congesto nasal, prurido e coriza aquosa, podem persistir por at uma semana. A persistncia de sintomatologia por perodos mais prolongados pode indicar comprometimento sinusal. O contato com outras crianas e a presena de suscetibilidade indivi-dual associada a outros fatores de risco podem tornar os episdios virais mais freqentes e permitir o aparecimento de infeces secundrias (rinites bacterianas), causadas principalmente pelos Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moraxela catarrhalis.

Diagnstico
O diagnstico baseado no exame fsico, na histria e na presena de sinais clnicos de manifestaes virais associadas. O rinoscopia anterior ir mostrar hiperemia e hipertrofia da mucosa nasal. O aspecto da secreo nasal (rinorria) importante para o diagnstico diferencial. Rinorria muco-purulenta mais comum nos processos bacterianos. A persistncia de rinorria muco-purulenta por mais de 7 dias um dos fatores indicativos de comprometimento sinusal associado.

Tratamento
O tratamento dos processos virais sintomtico, com utilizao de analgsicos e antitrmicos. A doena auto-limitada e a mucosa nasal defende-se sozinha. No necessria a utilizao de solues nasais, mesmo salinas, que devem ser reservadas para os casos de obstruo nasal intensa, levando a dificuldades de alimentao e sono. Especial ateno deve ser dada para as rinites dos recm-nascidos e lactentes, considerando o pequeno volume das fossas nasais destes pacientes. A obstruo nasal pode causar desconforto respiratrio, respirao ruidosa e dificuldades na amamentao. Nestes casos a lavagem das fossas nasais com soluo salina torna-se importante. A utilizao de vasoconstritores tpicos danosa, pelo risco de instabilidade cardiorrespiratria. As rinites bacterianas devem ser tratadas com antibiticos. A droga de escolha a amoxacilina. No caso de alergia a penicilina, utilizam-se os macroldeos.


RINITES ALRGICAS
Introduo
As rinites alrgicas representam um captulo a parte nas doenas respiratrias. As rinites so as manifestaes mais comuns dos distrbios alrgicos. A predisposio familiar evidente. Os principais sintomas da rinite alrgica so os espirros, prurido nasal, rinorria aquosa e obstruo nasal, nessa ordem. So comuns a presena de sintomas de prurido ocular, lacrimejamento e reao conjuntival. caracterstico o aparecimento dos sintomas logo aps o contato com algum agente alergnico. Nas crianas pequenas os alimentos devem ser considerados como fonte alergnica. Nas crianas maiores os inalantes representam o principal grupo.

Manifestaes clnicas
As manifestaes alrgicas da mucosa nasal dividem-se basicamente em 2 tipos, dependendo do tipo da reao alrgica envolvida. Na fase aguda, desencadeada pelo contato com o alrgeno, predominam a fase secretora da mucosa nasal, manifestada por rinorria aguosa eosinoflica, prurido e espirros. Aps a fase aguda, a atopia continua se manifestando por meio de mecanismos de hipersensibilidade tardia, fase crnica da rinite atpica, em que predominam os sintomas inflamatrios, determinando edema de mucosa e obstruo nasal. As crises agudas repetem-se em intervalos variados, dependendo da susceti-bilidade individual e exposio ao alrgeno.

Diagnstico
O diagnstico firmado por meio da histria e do exame fsico. A rinoscopia anterior caracterstica, mostrando mucosa hipertrofiada com palidez acentuada. Nas crises agudas, evidente a rinorria aquosa de aspecto eosinoflico, com irritao da pele que circunda as narinas. A prega nasal transversa mais freqente aps os 4 anos. O exame laboratorial do muco nasal revela presena de eosinfilia (10% a 20%) e numerosos macrfagos. A dosagem srica de IgE geralmente est elevada. Os testes cutneos in vivo e in vitro revelam a produo de IgE quando em contato com alrgenos especficos.

Tratamento
O tratamento das rinopatias alrgicas envolve a identificao e melhor remoo possvel dos agentes alergnicos, o tratamento medicamentoso e a imunoterapia especfica, sendo que a higiene ambiental a principal conduta no tratamento da criana atpica. O tratamento medicamentoso no visa curar o processo alrgico, mas aliviar os sintomas. As principais opes so os anti-histamnicos e a corticoterapia tpica. Eventualmente necessrio a utilizao de corticoterapia sistmica.

Os anti-histamnicos esto indicados na fase aguda, na presena de rinorria evidente. A associao de anti-histamnicos com descon-gestionantes orais pode ser necessria nos casos de rinorria e obstruo mais intensa. Os descongestionantes orais no devem ser utilizados por perodos superiores a 5 dias, pois determinam paralisao do batimento ciliar da mucosa nasal, retardando a eliminao da secreo. O uso prolongado tambm pode causar efeito rebote na sua suspenso, com piora dos sintomas obstrutivos. Deve-se utilizar preferencialmente os anti-histamnicos de 2 gerao, pois causam menos sedao. importante lembrar que em crianas com menos de 2 anos, os anti-histamnicos, especialmente os de ao prolongada, podem apresentar efeito paradoxal, causando agitao e confuso mental. Os anti-histamnicos locais no esto indicados para os quadros de rinite aguda. O cromoglicado pode ser utilizado com profiltico, nos casos com asma associada. A azelastina de difcil utilizao na criana, conside-rando a freqncia de utilizao e o ardor caracterstico que acompanha a aplicao. Os descongestionantes locais no devem ser utilizados em criana.

A corticoterapia tpica um medicamento importante no tratamento das rinites, princi-palmente na fase obstrutiva. O medicamento deve ser utilizado por um perodo de 30 dias, podendo ser prolongado em casos especiais. Quando a resposta inicial pobre, no existe benefcio em prolongar o tratamento.

Os corticides sistmicos podem ser necessrios nos quadros de obstruo nasal severa ou naqueles rebeldes ao tratamento.

Uma opo nesses casos iniciar a corticoterapia sistmica por at uma semana, at a melhora dos sintomas e prosseguir com medicao tpica, sem necessidade de retirada gradual do corticosteride sistmico.

A higiene nasal com soluo salina importante nos casos de rinorria aquosa persistente e acmulo de secreo nas fossas nasais, permitindo a umidificao, amolecimento e drenagem fisiolgica das secrees.

A imunoterapia, utilizada por via subcutnea ou intradrmica, uma opo importante no controle das rinites alrgicas, aumentando de forma variada o perodo entre as crises. Deve ser utilizada por tempo prolongado. Os benefcios das imunoterapias tpica, sublingual ou intranasal, so controversos.

A polipose nasal pode estar associada ou mesmo ser complicao das rinites prolongadas. Quando persistente, deve ser tratada cirurgicamente. A recidiva freqente.

RINITES MEDICAMENTOSAS
Merecem ser includas num captulo a parte pelo componente iatrognico na sua evoluo. As rinites medicamentosas so causadas principalmente pelo uso prolongado de medi-cao irritante da mucosa nasal. No deve ser confundida com a reao da mucosa nasal que pode ser desencadeada por alergia ao uso de diversos medicamentos. A droga mais comumente relacionada irritao local do nariz o uso excessivo de medicao vasoconstritora local. A utilizao por mais de 5 dias j determina alterao importante no mecanismo de proteo muco-ciliar. Com o trmino da medicao, o retorno da fisiologia normal da mucosa pode demorar de 7 a 14 dias. A utilizao da medicao por perodos mais prolongados (3 a 4 semanas) leva interrrupo e alterao significativa do fluxo sangneo para a mucosa nasal, levando a alteraes estruturais importantes da parede da mucosa nasal. Nesses casos, pode ser necessrio a retirada gradativa do medica-mento, com necessidade freqente de utilizao de corticoterapia de suporte. Diversos outros medicamentos, quando utilizados por perodos excessivos, podem irritar a mucosa, inclusive os corticosterides tpicos.

RINITES CRNICAS
As rinites crnicas so causadas por modificaes permanentes das caractersticas da mucosa nasal. As rinites alrgicas apresentam em sua evoluo uma fase crnica, cujo diagnstico e tratamento foi abordado anteriormente. As rinites crnicas no alrgicas representam quadro clnico distinto, podendo ou no evoluir a partir de uma rinite aguda no tratada ou de evoluo arrastada. As rinites crnicas no alrgicas geralmente esto associadas a outros fatores que determinam a manuteno da obstruo nasal. A alterao crnica da mucosa nasal pode levar a uma hipertrofia irreversvel (rinite crnica hipertrfica) ou atrofia permanente da mucosa (rinite crnica atrfica), que geralmente causada por destruio da mucosa nasal durante processo agudo invasivo. Outro tipo especial de rinite a chamada rinite vasomotora, na qual existe uma reao exagerada da mucosa nasal ao estmulo, apresentando-se hipertrofiada e hiperemiada. Acredita-se que este quadro possa estar associado a uma hiperatividade local do sistmica nervoso autnomo.

Diagnstico
A histria e o exame clnico so importantes para identificar a presena de doenas associadas e afastar a histria de atopia. O exame cuidadoso das fossas nasais, realizado pelo especialista fundamental para a observao do tipo de obstruo, da colorao da mucosa nasal e do aspecto da secreo nasal. A realizao da endoscopia nasal essencial para a identificao da causa da obstruo e dos possveis fatores obstrutivos associados. Os mais comuns so a presena de desvio de septo nasal, hipertrofia de adenides e polipose nasal. O grau de obstruo da mucosa nasal variado, podendo ou no ser simtrico. Todo a concha nasal pode estar hipertrofiada, ou a obstruo pode ser causada apenas por uma hipertrofia localizada, por exemplo, na cauda das conchas nasais. A simples rinoscopia anterior no permite observar esta obstruo. No incomum haver associao de fatores, como um paciente atpico apresentando obstruo nasal tambm associada a desvio de septo nasal ou hipertrofia de adenides. O exame endoscpico persiste uma observao completa da mucosa nasal. Geralmente o estudo radiolgico dispensvel, salvo quando se suspeita de complicaes fora das cavidades naso-sinusais.

Tratamento
O tratamento das rinites crnicas visa permitir desobstruir o nariz. O controle das infeces, quando presentes, no suficiente. preciso restabelecer a respirao pelo nariz, evitando as seqelas do respirador bucal. O tratamento medicamentoso similar ao das rinopatias alrgicas. Muitas vezes necessrio corrigir cirurgicamente as alteraes morfolgicas associadas. A adenoidectomia, quando necessrio, pode ser realizada em qualquer idade. J a correo do desvio de septo nasal s deve ser realizada em crianas pequenas quando a obstruo nasal for severa.

COMPLICAES
As complicaes da rinites esto relacionadas ao grau e ao tempo de obstruo nasal. A continuidade da mucosa nasal com a mucosa dos seios paranasais e da orelha mdia, faz com que as sinusites e a otite mdia estejam naturalmente relacionadas com a doena da mucosa nasal. Portanto, as sinusites e otites de repetio so complicaes naturais das rinites. Essas patologias no sero discutidas neste momento.

A localizao caracterstica das terminaes do nervo olfatrio na parte superior (estreita) da cavidade nasal, faz com que com o bloqueio da cavidade nasal o ar no chegue aos filetes olfatrios, determinando a diminuio ou o desaparecimento do olfato. A cronicidade da obstruo pode levar a alterao permanente do epitlio olfatrio, tornando a perda de olfato irreversvel.

A mucosa nasal prolongada pode tambm levar a degenerao da mucosa normal, formando a chamada polipose nasal.

Alm disso, a mucosa hipertrofiada e permanentemente obstruda, com ou sem polipose, poder tambm levar ao bloqueio do meato mdio e consequentemente dos stios dos seios paranasais, alm dos orifcios da tuba auditiva, posteriormente. As alteraes clnicas dependero do grau da obstruo nasal e da extenso da polipose para o seios paranasais, podendo tambm determinar o aparecimento de sinusites e/ou otite mdia de repetio.

A obstruo da tuba auditiva pode levar tambm ao aparecimento de secreo na orelha mdia (otite mdia serosa), que pode cursar sem o aparecimento de otite mdia aguda, ou seja, silenciosamente. A otite mdia serosa determina diminuio de audio na criana, e pode ser um fator silencioso associado ao atraso e o distrbio da linguagem e aprendizado na criana. A obstruo nasal crnica por si s pode ser considerada uma complicao das rinites. Provavelmente a obstruo nasal crnica a queixa clnica persistente mais comum entre crianas de qualquer idade. Infelizmente, nem sempre a queixa considerada pertinente e adequadamente avaliada e tratada. A obstruo nasal muitas vezes considerada como uma resposta normal da criana a estmulos ambientais. Isto verdade, desde que se manifeste em curto perodo de tempo e no leve a bloqueio da respirao nasal. As implicaes de uma obstruo nasal prolongada, espe-cialmente em crianas pequenas, vo muito alm da dificuldade em respirar pelo nariz. A obstruo nasal crnica est associada respirao bucal de suplncia. Juntos, iro determinar alteraes importantes no crescimento facial. O crescimento do tero mdio da face deter-minada pela funo do nariz, enquanto o crescimento do tero inferior da face determinada pela funo mastigatria. Nariz entupido e respirao bucal, portanto, determinaro crescimento maior do tero inferior da face em relao ao tero mdio. Isto ocasionar alongamento da face, alargamento das estruturas oro-faciais, deformidades palatinas, dentrias e naso-septais. A criana perpetuar sua respirao bucal, agora associada a alteraes estruturais da face. Alm disso, a obstruo nasal crnica fator determinante das patologias sinusais e doenas da orelha mdia.

Portanto, a criana que no respira pelo nariz deve ser avaliada cuidadosamente, e no apenas aquelas que apresentam infeces de vias areas superiores.

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Otite Mdia Recorrente
Moacyr Saffer
En cualquier medicina, existe al principio la palabra, despus la hierba, y por ltimo el cuchillo.
(Avicenne)

Imunologia do ouvido mdio
1 - Ouvido mdio normal possui atividade enzimtica protetora e um sistema mucociliar de defesa.
2 - Existem poucas clulas imunocompetentes por reduzida estimulao antignica.
3 - Atividade imunolgica pode resultar em proteo ou originar imunopatologia.
4 - Imunocomplexos podem causar inflamao que geram exudatos.

Tratamento da Otite Media Aguda (OMA)
A mudana nas sensibilidade dos patogenos no ouvido mdio sugerem eventualmente o uso de novos antibiticos. A dificuldade na demonstrao da eficincia teraputica o alto grau de cura expontnea (81%ou mais) da OMA.

FALHAS NO TRATAMENTO
Em muitos casos de insucesso, a secreo estril e a inflamao persiste por razes desconhecidas, possivelmente devido a mediadores inflamatrios na cavidade e reas vizinhas.

Se os sintomas e sinais de OMA persistirem apesar do tratamento antibiocrobiano, no h acordo universal quanto a razo para escolha de outro antibitico.

Crianas de alto risco:
Menores de 2 anos
Primeiro episdio de OMA antes dos 6 meses
3 episdios de OMA em 6 meses ou 4 em l ano
Freqentar uma creche grande

Crianas de baixo risco:
Idade 2 anos ou mais
Sem episdios recorrentes de OMA Ausncia de OMCS
Envolvimento de um ouvido apenas
Freqentar uma creche pequena

OTITE MDIA RECORRENTE
Consideraes sobre o diagnstico
Definio
Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) a ocorrncia de 3 episdios de OMA em 6 meses ou 4 em 12 meses.

Uniformidade de conceitos
Aguda refere-se histologicamente a uma infiltra-o por polimorfonucleares e clinicamente apresenta sinais clssicos de inflamao aguda. Crnica compreende a infiltrao do mucope-riosteo por clulas redondas e onde os aspectos clnicos so menos marcantes.

Para o diagnostico de Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) mandatrio distinguir entre uma inflamao aguda(OMA) episdica, que se repete num curto espao de tempo, e uma agudizao de um processo crnico (OMCS).

OTITE MDIA AGUDA RECORRENTE
A otoscopia define a histria natural do ciclo patolgico da otite media aguda recorrente no qual a membrana timpnica apresenta-se sob mltiplos aspectos que vo se modificando conforme o momento do exame (conceito do continuum).

Estes aspectos variados observados pela otoscopia tanto podem modificar-se no sentido de uma evoluo benigna de cura como de agravamento.

A Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) um importante componente no conceito da doena do ouvido mdio, onde uma forma de Otite Mdia se encaixa na outra.

Duas formas de apresentao:
a - Entre os episdios de inflamao aguda h um perodo de cura, com ouvido mdio normal e caixa plenamente arejada.
b - Os episdios inflamatrios representam a repetio agudizada de uma inflamao crnica na qual persiste sempre uma secreo residual.

Preveno da OMAR
Aleitamento materno
Evitar fumo em casa
Famlia ou pequenas creches
Profilaxia Adenoidectomia
Tubos de ventilao
Vacinas
Alergia

Vrus e Bactrias
Estudos epidemiolgicos mostraram uma alta correlao entre OMA, o inverno, IVAS e creches.

Bactrias - Existem duas indicaes de que a o ouvido mdio est protegido por dois mecanismos imunolgicos de defesa, ambos local e sistmico: as bactrias causadoras de OMA so eliminadas do ouvido por meio de anticorpos especficos e as infeces diminuem com a idade.

Antibiticos - sua efetividade est associada sua concentrao no ouvido mdio. Uma falha no tratamento por 3 - 5 dias no significa necessariamente um organismo resistente, mas pode ser uma falha na droga em atingir a concentrao efetiva.

A aspirao do lquido, um procedimento de consultrio, importante na orientao teraputica especificamente para aquela criana que no melhora.

No possvel distinguir entre a secreo residual, existente sempre no ouvido mdio aps episdio de uma OMA, daquela secretada pela mucosa alterada (secretante) de uma OMCS, a no ser com acompanhamento constante pela otoscopia desde o incio do processo.

A permanncia da secreo no ouvido mdio por semanas e meses decorre da falha na eliminao das secrees pela disfuno dos clios, edema da mucosa, viscosidade das secrees e gradiente de presso alterado.

NADA CURA OTITE MDIA A NO SER O CRESCIMENTO DA CRIANA: O OUVIDO CRESCE, A TROMPA DE EUSTQUIO CRESCE, O SISTEMA IMUNE CRESCE.
Gates, 1995.

Tratamento da Otite Mdia Aguda Bacteriana (efeito Pollyanna).

Um percentual diagnosticado clinicamente vai curar sozinho, independentemente do tratamento.

No diagnstico incorreto (choro, mo no ouvido) este percentual no vai responder a nenhum antibitico.

A eficcia relativa de um antibitico visto entre os casos resolvidos espontaneamente e os no-tratveis.



Rinossinusite: Diagnstico e Tratamento
Luiza H. Endo

A rinossinusite da criana apresenta particularidades que devem ser consideradas: sintomatologia variada, diferente da do adulto e a avaliao radiolgica com limitaes. Existe a influncia de alguns fatores na etiopatogenia e sintomatologia das rinossinusites da criana: os seios paranasais esto em franco desenvolvimento; a criana est em fase de maturao do sistema imunolgico; ela mais propensa s infeces de vias areas superiores (IVAS); apresenta vegetaes adenoideanas que podem ser fonte de infeces; alm da presena mais comum do refluxo gastroesofgico, fibrose cstica e outras patologias comuns para esta faixa de idade.

Os seios etmoidais comeam a se formar no 4 ms de gestao, so constitudas por um grupo de clulas individuais com stio prprio, apresentam aerao varivel, sendo que as clulas anteriores so menores e as posterio-res maiores. So as primeiras a serem formadas, sendo que, ao nascimento, elas j esto presentes crescendo rapidamente nos primeiros anos de vida.

Os seios maxilares tm seu incio de formao no 2 trimestre de vida intra-uterina sendo que, ao nascimento, apresenta forma de fenda, cujo assoalho corresponde ao corneto inferior. Com um ano de idade, os seios maxilares situam-se abaixo da rbita na posio correspondente ao nervo infra-orbitrio; dos 3 a 4 anos crescem em largura e, dos 7 a 9 anos, cresce inferior-mente acompanhando a erupo dos dentes permanentes. O assoalho do seio maxilar corresponde ao nvel do assoalho da cavidade nasal dos 10 a 12 anos.

Os seios frontais comeam a se desenvolver a partir da projeo de uma clula etmoidal entre o 6 e 12 ms de vida ps fetal. Ao nascimen- to, portanto, no reconhecvel. Apresenta variabilidade de crescimento, sendo que 80% dos indivduos tm seios frontais assimtricos, 4% agenesia e/ou hipoplasia.

Os seios esfenoidais iniciam o seu desenvol-vimento no 4 ms de vida fetal, permanecem na posio nasal at o 4 ano de vida, e, dos 6 aos 7 anos, estabelece uma ntima relao com o pterigide.

Dependendo da idade da criana teremos diferentes seios acometidos e, portanto, necessrio ter o conhecimento da evoluo destes seios ao longo da vida da criana.

A rinossinusite, na criana, pode apresentar sintomas isolados, associados e, alm disso, sintomas que so mais comuns dependentes da idade. Encontramos casos de rinossinusite onde a febre aparece como nico sintoma assim como a halitose e/ou a inapetncia. comum a associao de tosse (diurna e/ou noturna), obstruo nasal, e rinorria purulenta. A cefalia, muito comum no adulto, no o sintoma principal na criana e s comea a ser referida pela criana a partir dos 5 a 6 anos de idade.

Apesar de sabermos que a rinossinusite pode cursar com rinorria purulenta anterior e/ou posterior, necessrio fazer um diagnstico diferencial com outras patologias que apre-sentam este sintoma: adenoidite, rinite aguda epidmica, rinite bacteriana, rinite crnica e corpos estranhos de cavidade nasal. A durao da sintomatologia deve ser tambm valorizada uma vez que a sintomatologia das rinites epidmicas (do resfriado comum e da gripe) costumam cessar aps dez dias. A criana pode apresentar de 9 a 11 crises de resfriado comum e gripe durante um ano, sendo que muitas destas podem evoluir para uma rinossinusite bacteriana. O diagnstico de uma rinossinusite geralmente baseado em evidncias clnicas e na durao desta sintomatologia. Segundo Wald, no curso de uma IVAS viral, devemos suspeitar de uma infeco bacteriana sinusal quando a sinto-matologia de um resfriado comum persistir por mais de dez dias, sem evidncia de melhora, ou quando houver piora dos sintomas aps o quinto dia, caracterizada por hipertermia elevada, rinorria purulenta abundante e obstruo nasal de incio sbito, podendo haver associao com edema periorbitrio ou dor facial. Todos os sintomas que podem aparecer na rinossinusite merecem diagnstico diferencial com as outras patologias quais sejam: tosse, febre, inapetncia, rinorria e cefalia. A dificuldade maior est em diferenciar cada quadro, sendo que, para tal, o exame da cavidade nasal se torna imprescindvel para se definir o diagnstico. A endoscopia nasal seria o melhor mtodo para se avaliar a cavidade nasal, porm, uma mucosa nasal hiperemiada, secreo nasal purulenta em meato mdio pode ser evidenciada at com o uso do otoscpio acoplado ao espculo com o tamanho do dimetro do stio nasal.

Realizamos um estudo avaliando a sintoma-tologia de crianas que procuraram dois servios: clnica de otorrinolaringologia e uma clnica peditrica. Utilizamos uma ficha contendo todos os sintomas esperados de uma rinossinusite, baseando-se em estudos anterio-res e nos citados na literatura. Todos os casos com diagnstico de rinossinusite que eram baseados em quadro clnico e exame da cavidade nasal, foram submetidos ao exame radiolgico pr e ps tratamento. Apesar de se conhecer a variabilidade do exame radiolgico, consideramos como rinossinusite os espessa-mentos de mucosa que ocupavam rea igual ou maior do que 50% dos seios paranasais, os velamentos totais e a presena de nvel lquido. Para verificar a relao entre freqncia de sintomas e a faixa etria, dividimos as crianas em trs grupos: 18 meses at 24 meses (16 crianas), 2 a 6 anos (66 casos) e acima de 6 anos (18 casos). Pudemos verificar que a febre foi de aparecimento comum (50%) nos trs grupos, sendo que muitas crianas apresentaram a febre como nico sintoma. Antecedente de IVAS foi muito comum nos trs grupos. Inapetncia e tosse noturna associados ou isolados foram os sintomas mais comuns no primeiro grupo. Nas crianas maiores do que 2 anos houve predomnio de tosse diurna ou noturna e rinorria purulenta. A cefalia foi queixa de 21% das crianas entre 2 e 6 anos e 33% das crianas maiores do que 6 anos. Febre a esclarecer, inapetncia ou halitose aps um quadro prolongado de IVAS eram sintomas isolados freqentes em qualquer dos grupos. A associao de sintomas mais freqente foi: rinorria purulenta com obstruo nasal e com tosse, principalmente na criana acima dos 4 anos.

Nossos achados confirmam a variabilidade dos sintomas e refora a necessidade de se conhecer a gama de sintomatologia na rinossinusite da criana, considerando o exame da cavidade nasal como chave para se fechar o diagnstico.

O exame radiolgico (radiografia simples de seios da face) na criana est sujeito a erros de interpretao. Estudos realizados com crianas na vigncia de IVAS, mesmo sem sintomas sugestivos de patologia sinusal demonstraram alteraes radiogrficas. Espessamentos de mucosa podem ser confundidos com hipoplasias, ou mesmo a presena de uma secreo espessa mucide sobre a mucosa dos seios paranasais. Dependendo do posicionamento da criana (cabea colocada na posio naso-mento um pouco mais fletida para trs), imagem da gordura das bochechas pode dar a falsa impresso de velamento total dos seios maxilares.

O diagnstico ento firmado quando, alm dos sintomas que so muito variados na rinossinusite da criana, encontramos os sinais caractersticos no exame da cavidade nasal quais sejam: hiperemia e edema de mucosa, secreo purulenta nos meatos mdios.

Para o diagnstico temos nos dias atuais a possibilidade de se utilizar a tomografia computadorizada (TC) dos seios paranasais (coronal e axial). Este exame nos informa de forma precisa sobre as alteraes anatmicas do complexo stiomeatal. recomendado o uso deste exame nas rinossinusites de repetio e nas complicaes aps rinossinusites. A TC, alm de encarecer o mtodo diagnstico, est sujeito tambm a erros. Estudos realizados por Lusk demonstrou que pode haver radiografias demonstrando espessamentos grandes em seios maxilares com TC demonstrando seios maxilares totalmente aerados e vice-versa.

O tratamento clnico das rinossinusites visa agir nas bactrias, na mucosa e nos fatores predisponentes. Mais de 70% das bactrias responsveis pelas rinossinusites so os Streptococcus pneumoniae e o Haemophilus influenzae. Na criana h maior prevalncia do Haemophilus influenzae do que no adulto. Encontramos ainda em menor proporo as Moraxella catarrhalis e o Staphylococcus aureus. A antibioticoterapia tem por alvo debelar primeiramente as duas bactrias prevalentes e, para tal, como medicamento de primeira escolha, preconizamos o uso da amoxicilina. Nos insucessos teraputicos com esta droga poderemos lanar mo das amoxicilinas associadas ao cido clavulnico, cefalosporinas de segunda gerao como o cefaclor, o axetil-cefuroxime, e o cefprozil, assim como as cefalosporinas de terceira gerao quais sejam: cefopodoxima proxetil, cefixime, cefetamet pivoxil. Os antimicrobianos do grupo dos novos macroldeos podem tambm ser utilizados como a claritromicina, azitromicina e a roxitromicina.

Em casos de obstruo nasal muito intensa preconiza-se o uso de vaso constrictores locais diludos e por curto tempo (no mximo 5 dias). Pode-se utilizar as solues salinas hipertnicas de David Parsons (1000ml de gua fervida, 2 colheres das de sobremesa de sal marinho ou grosso, 1 colher das de sobremesa de bicarbonato de sdio) 2 vezes ao dia, que atua diminuindo o edema do stio de abertura dos seios paranasais e aumentando o batimento ciliar. Em crianas muito importante investigar os fatores predisponentes, principalmente em casos de recorrncia da infeco: hipertrofia adenoideana, desvios de septo nasal, mucovisci-dose, deficincia imunolgica, discinesia ciliar, alergia nasal, e outros fatores.

A criana com rinossinusite tem uma resposta melhor ao tratamento clnico do que o adulto e, portanto, a rinossinusite crnica menos comum. Uma criana em bom estado geral, na ausncia de comprometimento sistmico, raramente necessita de procedimento cirrgico. Quando realizado o procedimento cirrgico, este feito com muita cautela e de forma mais conservadora possvel.

As rinossinusites podem curar mesmo sem tratamento clnico. No entanto, devemos lembrar que as crianas, devido a conformao anatmica, so mais sujeitas s complicaes ps infeces e, assim sendo, recomenda-se tratar com antibioticoterapia sempre que possvel. Das complicaes das rinossinusites podemos citar as celulites periorbitrias, celulite orbitria, osteomielite de seio frontal, maxilar, alm das complicaes graves como as intracranianas (meningite, abscesso cerebral e tromboflebite do seio cavernoso).

Obs. Recomendamos a leitura do I Consenso Brasileiro sobre Rinossinusite Recife-PE-1998, publicado no suplemento n9 da Revista Brasileira de Otorrinolaringologia 1999, 65(3). Participamos deste consenso e as bibliografias a serem consultadas esto referidas nesta publicao.


NEFROLOGIA
Infeco Urinria
Joo Toms de Abreu Carvalhes

CONSIDERAES GERAIS
A infeco do trato urinrio (ITU) pode resultar em ampla variao de aspectos clnicos.

De um lado, a infeco pode ser totalmente assintomtica e reconhecida apenas pelo encontro de bactrias na urina, isto , bacteriria a qual, assintomtica, pode refletir multiplicao restrita de bactrias da mucosa da bexiga ou na urina visical. De modo geral, essa forma de infeco representaria colonizao do trato urinrio baixo, semelhana do que ocorre com a flora normal de outros rgos ou sistemas como, por exemplo, o trato respiratrio alto, a pele e pores inferiores do trato gastrointestinal, conceito este muito pouco aceito.

De maneira oposta, a bactria pode penetrar em camadas profundas da bexiga levando a alteraes tais como febre, mices imperiosas e freqentes, disria etc, isto , o quadro clnico clssico da cistite. Numa pequena parcela de pacientes, a bactria localizada na bexiga pode ter acesso ao trato urinrio alto, invadindo a mucosa da plvis e chegando ao tecido intersticial de um ou de ambos os rins, determinando a pielonefrite aguda em geral. Tais pacientes mostram-se gravemente doentes, com picos elevados de temperatura, leo paraltico (chega a simular abdmen agudo), dores lombares e no trajeto ureteral, toxemia e demais evidncias do comprometimento do estado geral decorrentes de infeco.

Em particular, na criana em seus primeiros meses de vida, freqente a associao de ictercia, sugerindo colangite.

A pielonefrite aguda segue alguma interferncia do fluxo normal de urina, interferncia esta que decorre de clculos renais, tumores e malformaes congnitas que determinam obstruo, ou do refluxo vesicouretral, que tambm pode ser primrio.

As alteraes histopatolgicas da pielonefrite aguda so relativamente bem definidas. H variao muito grande na quantidade de clulas inflamatrias, predominando sempre o nmero de neutrfilos segmentados que, invadindo a luz tubular, do origem aos cilindros leucoci-trios. Em algumas situaes demonstram-se bactrias na urina colhida a este nvel, ou cultura de tecido renal afetado.

Na pielonefrite crnica (PNC), as alteraes histopatolgicas evidenciam menor quantidade de clulas inflamatrias, tbulos obstrudos e dilatados contendo em seu interior material hialino de consistncia coloidal o chamado aspecto de tiroidizao renal, tido por vrios autores como patognomnico desta patologia. No entanto, existem situaes que ainda neces-sitam maiores explicaes. Uma delas a perda, na PNC, de qualquer evidncia de infeco. A urina pode no apresentar sedimento alterado nem bactrias e a nica sugesto de alterao renal a persistncia de proteinria. Em decor-rncia disso, h os que acreditam que a infeco por si s no teria participao efetiva na gnese da leso renal. Isto , reforada pelo fato de que muitas alteraes histopatolgicas encontradas na PNC podem ser verificadas em outros tipos de agresses renais, sem origem infecciosa, como a nefropatia intersticial determinada por analgsicos, isquemia secundria nefrosclerose progressiva e rejeio crnica de transplantes, todas elas com infiltrado mononuclear peritu-bular, dilatao dos tbulos, inclusive com tiroidizao, fibrose e cicatrizes.

Por estas razes, novos esforos devem ser feitos no sentido de se determinar como ocorre a leso renal na PNC.

Vrios estudos epidemiolgicos, usando bacteriria significante como critrio diagns-tico de ITU, tm demostrando que esta infeco pode comear em perodos iniciais entre pr-escolares e escolares est em torno de 1% a 2% com predominncia no sexo feminino, existindo estatsticas que do uma relao de at 30:1, independentemente da intensidade do quadro infeccioso. J em recm-nascidos h predomnio do sexo masculino e a incidncia chega a 6% dos R/N hospitalizados.

A grande maioria dos casos de ITU causada por bactrias da flora intestinal normal. Aproximadamente 90% de todas as infeces verificadas em indivduos sem obstrues das vias urinrias e no hospitalizados so causados p E. coli. Iutras bactrias Gram-negativas, bem como enterococos fecais ( Sterpcoccus faecalis) tambm apresentam capacidade de invadir o trato urinrio. No existe ainda evidncia, todavia, da participao de bactrias anaerbicas na gnese da ITU. No setor de nefrologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina UNIFEP, em levantamento realizado em crianas com e sem malformaes de vias urinrias, e sem distino de faixa etria (crianas at 12 anos), tivemos os resultados expostos na Tabela 1.

Tabela 1 - Infeco Urinria - Etiologia

Agente Etiolgico N %
E. Coli 108 54
Proteus 52 26
Klebsiella 15 7,5
Enterobacter 14 7,0
Providncia 5 2,5
S. Aureus 3 1,5
Pseudomonas 3 1,5
Total 200 100


Em relao E. coli determinando ITU, algumas consideraes devem ser feitas: recentemente vrios autores verificaram que alguns poucos sorotipos (de um total aproximado de 145) causam infeco urinria. Tais estudos estabeleceram que at 60% dos casos de ITU foram causado pelos sorotipos 01, 02, 04, 06, 07, 11, 15, 62, 75 que passaram, ento, a ser designados por bactrias ou cepas uropa-tognicas. Tambm a caracterizao de algumas bactrias, graas a seus antgenos O e K, estabelece a ntima relao da flora intestinal e as causadoras de ITU. Resta ainda ressaltar que aquelas bactrias coliformes possuidoras de antgeno K tambm possuem as chamadas fimbrias ou pili que lhes conferem maior mobilidade, e da, possivelmente, melhor capacidade de ascenso no trato urinrio, e tambm maior capacidade de se fixar a determinados pontos receptores existentes nas clulas do urotlio. Alm disso, existem fatores que conferem a tais sorotipos maior infectividade. Isto se baseia no fato de que outras infeces (meningites, septicemias, otites etc.) so, de maneira prevalecente, causada por E. coli destes sorotipos.

ainda importante fazer referncia possibilidade de infeco urinria pelas chamadas formas L, forma de resistncia bacteriana que em determinadas situaes podem readquirir sua parede, revertendo forma original com capacidade infectante. Sua participao, em termos de morbidade, seria nos casos de infeco urinria crnica com longo tempo de antibioticoterapia. Como neces-sitam de meio hipertnico para crescimento, raramente so diagnosticadas por meio dos mtodos rotineiros de comprovao laboratorial de infeco urinria.

Por outro lado, outros tipos de bactrias como Pseudomonas, Klebsiella, Serratia podem ser diagnosticadas como causas de ITU em indivduos hospitalizados. Nesta situao excepcional, em geral existe associao entre infeco e procedimentos mdicos invasivos, tais como sondagem vesical e cirurgias urolgicas.

VIAS DE INFECO SINTOMATOLOGIA
Entre os estudiosos do assunto, prevalece a opinio de que vrios eventos ocorrem e, entre eles, ressaltam a importncia da colonizao do perneo, do meato periuretral, da uretra anterior e, evidentemente, da vagina e intrito vaginal, sempre em decorrncia de fatores tais como atividade sexual, m higiene e incontinncia fecal, patolgica ou no, na gnese da ITU.

A ocorrncia de ITU entre recm-nascidos e lactentes, ainda sem controle esfincteriano, nada mais reflete do que esta contaminao do perneo. Estudos em algumas meninas revelam que a colonizao do vestbulo e passagens vaginais baixas de sorotipos especficos de E. coli ocorrem antes do desenvolvimento de ITU por idnticos sorotipos. Alm disso, sempre bom lembrar que a E. coli constituiu-se numa minoria entre os represen-tantes da flora intestinal, onde superada por grande nmero de outras bactrias e espcies (por exemplo, bactrias anaerbicas).

Sabe-se muito pouco sobre os eventos especficos pelos quais as bactrias migram no sentido da uretra para a bexiga e como elas so capazes de produzir infeco da mucosa vesical cujas clulas, por sua vez, teriam a capacidade de fagocitose. A mucosa da bexiga tambm teria capacidade de sintetizar imunoglobulinas que apresentariam mecanismos especficos para sua eliminao na urina. Portanto, a bexiga poderia atuar como um rgo imune, com capacidade de resposta humoral e, se assim for, a bactria que provoca ITU deve ter fatores de virulncia que lhe confere vantagem na patogenia.

Estudos experimentais mostram que bactrias possuidoras de flagelos, e portanto com capacidade de movimentao, podem apresen-tar movimento contra-corrente. Assim, em termos de probabilidade, determinariam pielonefrites aquelas bactrias com maior mobilidade, como por exemplo, as E. coli que apresentam os pili ou fimbrias.

A possibilidade de infeco por via hemato-gnica nem sempre considerada, somente tendo valor naqueles casos de infeco por estafilococos, estreptococos e outras bactrias que habitualmente no causam infeco no trato urinrio baixo. No entanto, vrios bices surgem a este mecanismo, pois algumas estruturas renais clulas mesangiais apre-sentam grande capacidade de fagocitose. Assim, haveria necessidade de elevado nmero de bactrias para os microorganismos vencerem o mesngio, atingirem o interstcio medular renal e determinarem a pielonefrite. No entanto, considerada por muitos como a principal via de contaminao do trato urinrio no perodo neonatal, talvez, entre outros mecanismos, por menor atividade mesangial nesta faixa etria, alm da freqente associao com malformao das vias excretoras, principalmente em lacten-tes jovens e neonatos do sexo masculino.

No perodo neonatal, a infeco se d, como j foi dito, em grande parte, por via hematognica. Nesta poca da vida, cerca de 30% apresentam sinais de comprometimento do SNC (convulses, principalmente). Podem apresentar hipertermia ou hipotermia, vmitos, diarria, cianose e toxemia.

A prevalncia do sexo masculino, talvez pela menor imunidade e pela maior quantidade de malformaes.

Tambm nos lactentes so raros os casos que apresentam sintomatologia sugestiva de comprometimento do trato urinrio, predomi-nando sintomas gerais. Assim observa-se, com freqncia, retardo de desenvolvimento pondero-estrutural, diarria ou obstipao nuseas e vmitos, febre de origem indeterminada. Em relao sintomatologia urinria, deve-se chamar a ateno para a reteno urinria.

A partir do segundo ano de vida ou, mais especificamente, a partir do momento em que j ocorre controle esfincteriano vesical, mais de 70% das crianas afetadas tero infeco urinria sintomtica, isto , prevalecer febre, enurese, disria e polaciria.

Dentro de nossa concepo, no tem valor, nem mesmo sentido, todo o esforo que se faz em distinguir infeco urinria (cistite) e infeco alta (pielonefrote). Isto porque se uma pode ser conseqncia da outra, ambas devem ser tratadas de maneira vigorosa e eficaz, at a esterilizao da urina.

DIAGNSTICO LABORATORIAL
Sempre feito pelo exame de urina. Geralmente h aspecto turvo, densidade urinria baixa e protenria raramente maior do que 1g no volume de diurese de 24 horas. No sedimento urinrio encontra-se leucocitria e/ou hematria; em alguns casos pode-se encontrar hematria isolada, dificultando o diagnstico diferencial com glomerulinefrites, vindo da a importncia da anlise morfolgica destas hemcias, pois na ITU no se observa dimorfismo eritrocitrio. Os leuccitos podem estar isolados e ntegros ou, mais freqentemente, agrupados e degenerados, podendo formar cilindros.

No entanto, o simples encontro de leucocitria no faz diagnstico de ITU, sendo fundamental, para tanto, a existncia de bacteriria. Portanto, imprescindvel a realizao de urocultura. Aqui vale ressaltar a importncia das tcnicas de coleta da urina para tal procedimento laboratorial. Assim, para maior segurana diagnstica, desejvel que a semeadura seja feita em meio apropriado, o mais rapidamente possvel. Apesar de ser praticamente isenta de riscos, quando realizada por pessoa habilitada, a puno suprapbica deve ser reservada para os casos excepcionais (perneo infectado, por exemplo).

Condenamos a prtica de sondagem vesical para coletas de urina para exames, mesmo quando se trata de meninas.

ASSOCIAO COM MALFORMAES
Como ficou patente, qualquer alterao na dinmica urinria pode predispor infeco. Assim, preconizamos o exame radiolgico em todas as crianas com ITU. Deve-se fazer a ultra-sonografia de rins e vias excretoras e a uretrocistografia miccional. Mais recentemente, com o advento dos radioistopos, possvel, com menor carga radioativa, a realizao de mapeamento renal como dos nefrogramas isotpicos.

A uretrocistografia miccional, que dever sempre ser feita quando a urina j esteja estril, dar avaliao sobre a bexiga, sua forma, capacidade residual, existncia de clculos e divertculos e, em especial, na criana, a presena de refluxo vesicouretral, bem como a classificao pela sua intensidade.

A urografia excretora d informaes em relao ao nmero, forma, ao tamanho e localizao dos rins, bem como os aspectos dos clices e a espessura cortical. Tambm possvel fazer avaliao de pelves e ureteres.

A medicina nuclear d grandes informao morfolgicas e funcionais, inclusive dos rins em separado.

TRATAMENTO
A escolha dos medicamentos a serem empregados no tratamento da ITU baseia-se em estudos da sensibilidade in vitro das bactrias que, com maior freqncia, deter-minam tais infeces. Nos casos graves, sempre que possvel, deve-se estudar a capacidade bactericida do antibitico. No entanto, fica a dvida da validade de se usar os discos para testes antibiograma, uma vez que tais discos so elaborados com a concentrao que a droga testada atinge no sangue. Portanto, quando utilizamos drogas de excreo renal, sua concentrao na urina poder ser muito mais elevada e, assim, possuir atividade teraputica. Isto tem acontecido no Hospital So Paulo, onde temos verificado que bactrias gram negativas (principalmente E. coli), tidas como resistente ao uso da associao trimetoprim e sulfa, acabam respondendo ao tratamento quando determinam ITU em crianas. De qualquer forma, para o tratamento da ITU na infncia, devemos seguir os preceitos da farmacodinmica e farmacocintica de toda antibioticoterapia.

Sendo assim, por exemplo, quando houver hiptese de pielonefrite, a droga a ser utilizada dever atingir concentraes adequadas no plasma, no tecido renal e na urina; evidentemente dever ser atuante no agente causal e, por fim, no apresentar nefrotoxicicidade. Ainda exempli-ficando, em RN, seguindo essa norma, as drogas que indicamos so as cefalosporinas, por serem menos txicas do que os aminoglicosdeos.

Por outro lado, nos casos de tratamento conservador dos refluxos vsico-ureterais, quando se tratar de profilaxia, poderemos utilizar quimioterpicos de ao intracanalicular, como a nitro-furantona, trimentropin-sulfa, o cido nalidxico, etc.

O importante manter o tratamento por tempo adequado, uma vez que j restou provado que as vrias tentativas de tratamento curto da ITU, independente da droga utilizada, no se mostram eficientes.

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