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PNEUMOLOGIA
Pneumonias atpicas
Maria de Ftima Bazhuni
Pombo March
Embora as pneumonias agudas bacterianas sejam as mais freqentes em nosso
meio, representando importante causa de morta-lidade em crianas de 0 a 5
cinco anos, pneumonias no bacterianas tambm acome-tem crianas, chegando
a ser as mais prevalentes em pases desenvolvidos. Nestes, vrus e Mycoplasma
pneumoniae j foram detectados em 17 a 31% dos casos de pneumonia em crianas
no hospitalizadas.
Define-se pneumonias atpicas como as que no podem ser classificadas como
bacterianas ou virais. Apresentam caractersticas clnicas, laboratoriais,
radiolgicas e teraputicas peculiares, que as diferenciam das pneumonias
bacterianas tpicas ou clssicas, como a pneumonia pneumocccica. Os principais
agentes etiolgicos so o Mycoplasma pneumoniae (Micoplasma) e a Chlamydia
pneumoniae (C. pneumoniae). Outros tambm devem ser considerados: Chlamydia
psittaci, Coxiella burnetii e Legionella sp. A identificao destes agentes
como causa de pneumonias atpicas relativamente recente. O Micoplasma foi
identificado em 1962, a Legionella no final dos anos 70 e a C. pneumoniae
em 1986.
Quadro: Agentes etiolgicos de pneumonia atpica em crianas, segundo a idade
do paciente.
| Agente |
0 a 1
ano
|
1 a 5
anos
|
6 a 16
anos
|
| Micoplasma |
-
|
+ + +
|
+ + +
|
| Chlamydia pneumoniae |
-
|
+ + +
|
+ + +
|
| Chlamydia psittaci |
-
|
+
|
+
|
| Coxiella burnetti |
+
|
+
|
+
|
| Legionella |
+
|
+
|
+
|
Legenda: = sem casos relatados
+ = raro ++ = frequente +++ = muito frequente
Fonte: Hammerschlag,1996 (modificado)
Micoplasma
O M. pneumoniae um organismo pleomrfico que no possui parede celular,
o que o torna insensvel aos antibiticos beta-lactmicos e outros que interferem
na sntese da parede celular.
A pneumonia por Micoplasma acomete com maior freqncia as crianas maiores
de 5 anos e rara em lactentes. Surtos epidmicos ocorrem em locais que favorecem
o contato ntimo, como creches, escolas, famlias, acampamentos, dentre outros.
O quadro clnico caracteriza-se em geral por incio gradual, h dias ou semanas.
Sintomas gerais como febre, mal-estar e dor de cabea so comuns. A tosse
persistente, inicialmente seca e pode tornar-se produtiva ou paroxstica.
Rush cutneo, faringite e miringite bolhosa tambm podem ocorrer.
ausculta respiratria podem ser detectados sibilos e estertores crepitantes.
Nas crianas com anemia falciforme, um agente freqentemente relacionado
sndrome torcica aguda.
Os achados radiolgicos so variados, predominando o infiltrado intersticial.
Caracte-risticamente estes achados correlacionam-se pouco aos achados clnicos.
O isolamento do Micoplasma atravs de cultura de secrees respiratrias no
realizado rotineiramente para o diagnstico. Atualmente o PCR uma grande
perspectiva, tendo demonstrado elevadas sensibilidade e especificidades, apesar
do custo elevado. A sorologia o mtodo mais utilizado, obtendo-se crioaglutininas
positivas (> 1:32) em aproximadamente 30 a 75% dos pacientes com pneumonia
por Micoplasma. O ideal que seja feita dosagem pareada (aps quatro semanas
da primeira). Admite-se que quanto maior o ttulo de crioaglutininas detectado,
maior a gravidade do quadro pulmonar.
Dependendo do estgio da doena, o diagnstico diferencial com outras pneumonias
bacterianas e virais torna-se difcil, pela inespecificidade de sinais e sintomas.
Na prtica, quase sempre, o diagnstico de excluso, pela resposta inadequada
aos antibiticos beta-lactmicos.
O tratamento muitas vezes emprico, pela falta de um mtodo rpido de diagnstico
para identificao do agente. Eritromicina e tetraciclina (para maiores de
8 anos) so indicados h muitos anos. Hoje em dia, recomenda-se tambm outros
macroldeos como azitromicina (10 mg/kg/dia, dose nica diria por 3 a 5 dias)
e claritromicina (15mg/ kg/dia, 2 doses dirias), por 10 dias em mdia, pela
facilidade de administrao. Estes antibiticos tambm so recomendados para
o tratamento da pneumonia por C. pneumoniae.
Chlamidias
Chlamydia pneumoniae A C. pneumoniae, tambm conhecida como TWAR, um parasita
intracelular obrigatrio, que transmitido por aspirao de partculas areas
contaminadas e causa pneumonia em adultos e crianas, principalmente entre
5 e 15 anos. Evidencia-se maior transmisso do agente entre pessoas que habitam
mesmo ambiente ou populaes confinadas. Observam-se infeces assintomticas
(portador so) prolongadas, que contribuem para a transmisso e interferem
na motilidade ciliar do epitlio respiratrio e na reatividade das vias areas.
O quadro clnico parecido com o da pneumonia por Micoplasma, com febre baixa,
tosse seca, dor de cabea e mal-estar. A intensidade do quadro varivel
e muitas vezes pode ser leve ou assintomtico.
Os achados radiolgicos no so caractersticos.
O isolamento da agente por cultura ou sua deteco atravs de testes sorolgicos
pode ser realizado, mas estes so demorados e a produo de anticorpos pode
no ser suficiente.
O tratamento , portanto, freqentemente emprico e baseado em critrios clnicos.
As drogas indicadas so as mesmas da pneumonia por Micoplasma mas o tempo
de tratamento deve ser mais prolongado, por 2 ou 3 semanas, exceto se usada
a azitromicina; nesse caso, 2 ciclos de 5 dias cada um, com intervalo de 5
dias.
Chlamydia trachomatis
A C. trachomatis relaciona-se mais ao grupo das pneumonias afebris do lactente.
A principal via de transmisso intraparto. A pneumonia ocorre entre a 3
e 16 semanas de vida e o quadro clnico caracteriza-se por tosse seca, persistente
e eventualmente paroxstica (em staccato), com bom estado geral, taquipnia
e temperatura subfebril. A evoluo clnica lenta, durando de 3 semanas
a 3 meses.
A radiografia de trax mostra hiperinsuflao pulmonar e/ou infiltrados intersticiais,
evidenciando-se estreitamento do mediastino superior (hipotrofia tmica).
A eosinofilia um achado laboratorial sugestivo.
O tratamento geralmente ambulatorial, com eritromicina (40mg/kg/dia 6/6
horas) por 10 a 14 dias.
Legionella sp.
A Legionella sp. um bacilo gram negativo que causa pneumonia ou doena sistmica
febril. A maioria dos casos de doena causada pela Legionella pneumophyla.
Este microorganismo pode ser encontrado em fontes aquosas, naturais ou artificiais,
no meio ambiente: tubulaes de ar condicionado central, tanques, nebulizadores,
bebedouros, dentre outros. A transmisso ocorre por inalao direta, atravs
da gua ou aparelhos que contenham gua. A doena ocorre caracteristicamente
sob a forma de microepidemias, envolvendo principalmente adultos.
O quadro clnico parecido com o das pneumonias bacterianas: incio sbito
de febre, tosse, dor pleurtica, dispnia e dor abdominal. A insuficincia
respiratria freqente.
A radiografia de trax mostra consolidao lobar, derrame pleural e raramente,
cavitaes.
Testes sorolgicos so utilizados em epidemias e pouco estudados ainda em
crianas.
Eritromicina droga de escolha. Podem ser utilizados tambm tetraciclina
e sulfame-toxazol+ trimetoprim por 3 ou mais semanas. Quinolonas, azitromicina
e claritromicina so as mais novas opes.
Outros agentes, raros, tambm podem estar envolvidos na etiologia das pneumonias
atpicas. A Chlamydia psittaci causa pneumonia, geralmente intersticial, com
febre, tosse seca, cefalia e mal-estar. A infeco ocorre pela inalao do
microorganismo, cujos principais reservatrios so os pssaros. Os testes
sorolgicos so pouco especficos. O tratamento indicado eritromicina por
at 10 a 14 dias aps a defervecncia do quadro. O Ureaplasma urealyticum
transmitido ao recm nascido pelo canal de parto de mulheres colonizadas,
colonizando-o sem causar doena ou gerando doena pulmonar crnica ou pneumonia
neonatal fatal. Testes sorolgicos como pesquisa de anticorpos homlogos e
teste de inibio metablica podem identificar o agente. A eritromicina
droga de escolha.
Finalizando, podemos afirmar que muitas vezes o diagnstico de pneumonias
atpicas na criana emprico, baseando-se na prtica, em dados clnicos,
epidemiolgicos e radiolgicos. A falta de resposta penicilina ou derivados
em escolares com quadro respiratrio persistente, associado histria de
contato com pessoas com quadro semelhante e infiltrados radiolgicos, sugerem
o diagnstico e a orientao teraputica com macroldeos. No Servio de Pneumologia
Infantil do IPPMG-UFRJ, foram estudadas 18 crianas com quadros de evoluo
lenta ou repetidos de infeco respiratria do trato inferior. Todos apresentavam
radiografias de trax alteradas com imagens sugestivas de condensao ou infiltrado
intersticial e j tinham recebido antibiticos como amoxicilina, cefalosporina
ou sulfametoxasol+trimetropim. O tratamento realizado com macroldeo mostrou
bons resultados em 16 casos.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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Bronquiolite
Jos Augusto Rubin Moura
INTRODUO.
Bronquiolite a denominao usual da sndrome clnica caracterizada por respirao
rpida, retraes torcicas e tosse, associada a evidncias de infeco viral
prvia das vias areas superiores. O quadro clnico geralmente vem acompanhado
de sibilncia expiratria. Alguns autores limitam o diagnstico aos menores
de 12 meses , mas a maioria inclui as crianas at dois anos de idade. A doena
apresenta elevada morbidade, apesar de baixos ndices de mortalidade. Portadores
de imunodeficincia, doena pulmonar crnica da prematuridade e cardiopatias
congnitas tm risco aumentado. Os estudos prospectivos tm revelado aumento
significativo da prevalncia de sintomas respiratrios em crianas que foram
admitidas com diagnstico clnico de bronquiolite viral aguda (BVA). Embora
estes sintomas, restritos ao lactente jovem, no sejam graves o suficiente
para levar admisso hospitalar, esto claramente associados com morbidade
respiratria aguda e crnica.
CONSIDERAES ETIOPATOGNICAS.
A partir da dcada de 70, o vrus sincicial respiratrio (VSR) tem sido o
principal agente encontrado. Existem evidencias da hetero-genicidade do VSR,
mas todas as cepas esto muito relacionadas e do ponto de vista epidemiolgico
se comportam como serotipo nico. Mais recentemente, dois subgrupos maiores
foram identificados: A e B, divididos em seis e trs subgrupos, respectivamente.
Durante uma epidemia, os dois subgrupos tendem a cocircular, assim como seus
subgrupos, e esta heterogenicidade responsvel pelos surtos anuais. O VSR
causa infeco em todas as partes do mundo, com surtos anuais sistemticos.
O VSR pode provocar infeco em qualquer faixa etria, mas seu grande impacto
nos lactentes jovens, sendo responsvel pela maioria dos casos de bronquiolite
viral aguda (BVA) e pneumonia nesta faixa etria. Em menores de 2 anos, o
VSR o principal responsvel pela asma-vrus induzida. Freqentemente, a
diferenciao entre pneumonia , bronquiolite e asma meramente arbitrria.
A inflamao das vias areas, provocada pelo VSR, pode induzir obstruo resultante
de hipersecreo de muco, presena de exsudatos nas vias areas, edema de
mucosa, e graus variados de broncoespasmo independente do processo imunolgico
subjacente.
Determinadas caractersticas anatomo-funcionais prprias dos lactentes jovens,
como aumento de resistncia das vias areas e a insuficincia de ventilao,
podem contribuir para a obstruo, formao de atelectasias e distrbios na
troca gasosa.
APRESENTAO.
A infeco raramente assintomtica, porm a apresentao clnica em lactentes
menores de 4 meses pode ser subclnica, com sintomas inespecficos ou mesmo
manifestao de apnia. Estes lactentes podem apresentar apnia inicialmente
e progredir para bronquiolite, ou apresentar apnia como nica manifestao
da infeco. A apnia pode ser causa de morte sbita. Apenas lactentes acima
desta faixa etria desenvolvem o quadro clnico tpico. Para a maioria do
infectados os sintomas so leves; apenas sinais de infeco de vias respiratrias
superiores, mas cerca de 10% desenvolvem BVA. Esta freqncia varivel,
dependendo dos critrios diagnsticos utilizados, se abrangentes ou restritos.
A febre baixa comum, mais freqente no incio do quadro, geralmente no
estando presente na admisso. A dificuldade de alimentao resultante de hipoxia
comum. Sinais fsicos decorrentes de hiperinsuflao do trax esto tipicamente
presentes, alm de rebaixamento do fgado e retrao subcostal. Ausculta pulmonar
revela crepitaes generalizadas bilaterais, que podem estar acompanhadas
por sibilncia. Na maioria dos casos, a bronquiolite leve o bastante para
ser controlada ambulatorialmente, mas entre 0,5-1,5% sero admitidos no hospital.
Os lactentes de 1-4 meses apresentam risco aumentado de infeco grave e hospitalizao.
A disseminao pelas crianas hospitalizadas continua em altos nveis mesmo
aps a melhora. Crianas menores de 12 meses continuam eliminando o vrus
por at nove dias. Pacientes com Sndromes de imunodeficincia continuam eliminando
o vrus por mais de 12 meses.
DIAGNSTICO
Rx de trax: As alteraes radiolgicas so inespecficas e incluem hiperinsuflao
com rebaixamento do diafragma, abaulamento do espao retroesternal e alargamento
dos espaos intercostais. Freqentemente ocorrem imagens de opacidades, principalmente
a nvel de LSD, geralmente devidas a colapsos subsegmentares. Infiltrados
peri-brnquicos sugestivos de pneumonia intersticial ocorre na maioria dos
lactentes. Espessamento e derrame pleural so raramente observados.
O diagnstico clnico pode ser rapidamente confirmado pela identificao ou
confirmao do VSR ou outra virose em aspirados nasofarngeos ou lavado nasal,
usando mtodos de Imunofluorescncia ou Elisa. Resultados negativos no excluem
o diagnstico. Lactentes jovens geralmente apresentam ttulos baixos. Necessita-se
de soro convalescente para confirmao do diagnstico sorolgico. A realizao
de cultura tem aplicao clnica limitada devido labilidade da amostra,
necessidade de manuseio cuidadoso e demora de mais de uma semana para confirmao
da doena.
DIAGNSTICO DIFERENCIAL
Se a doena grave, prolongada ou atpica importante a considerao de
outros diagnsticos primrios ou condies associadas, como fibrose cstica,
sndromes aspirativas, malformaes pulmonares congnitas e cardiopatias.
Pneumonia intersticial e bronquiolite obliterante resultantes de infeco
por adenovrus podem apresentar de incio quadro clnico semelhante a bronquiolite
pelo VSR. Pneumonias virais podem apresentar algumas das caractersticas da
bronquiolite. A distino deve ser feita em bases essencialmente clnicas,
desde que 20% dos pacientes com bronquiolite apresentem reas de consolidao
ou colapso sub-segmentar ao exame radiolgico. Hiperinsuflao ao Rx comum
na bronquiolite e suporta o diagnstico.
TRATAMENTO
1. GENERALIDADES
A monitorizao e os cuidados suportivos continuam como os pontos fundamentais
do tratamento. A doena autolimitada para aqueles que no apresentem condies
de risco. A monitorizao deve ser dirigida, principalmente, para a deteco
de apnia, hipoxia e insuficincia respiratria. A avaliao clnica da hipoxemia
difcil, tendo a oximetria de pulso o papel central na avaliao da hipoxemia
e subsequente recomendao de oxigenoterapia.. Os cuidados suportivos devem
ser direcionados para o alvio da hipoxemia, prover hidratao adequada e
prevenir a fadiga muscular atravs de manipulao mnima e suporte respiratrio.
A monitorizao dos gases arteriais usualmente requerida na considerao
de ventilao mecnica.
So indicao de hospitalizao as seguintes situaes: baixa idade (1-4 meses)
e presena de fatores de risco como cardiopatias, doena pulmonar neonatal
crnica dependente de O2, imunodeficincias, fibrose cstica e prematu-ridade
extrema.
2. OXIGENOTERAPIA
O oxignio o deve ser administrado umidificado. Taxas de FI02 de 35% -40 %
corrigem a hipoxemia arterial na maioria dos casos. O oxignio deve ser dado
sem temor de depresso respiratria significativa para os que no apresentam
histria de doena pulmonar obstrutiva crnica. Entretanto, um nmero crescente
de lactentes com displasia broncopulmonar apresentam risco aumentado para
a infeces virais desta natureza. Alguns deles apresentam reteno crnica
de C02 compensada. A piora na troca gasosa pode torn-los gravemente hipoxmicos.
A administrao de oxignio pode aumentar a reteno de CO2. A febre, resfriamento
e calafrios podem contribuir para a hipoxemia.
3. HIDRATAO
Alguns lactentes esto desidratados e com acidose metablica admisso. A
hidratao endovenosa deve ser cuidadosa. Admite-se que presses intrapleurais
altamente negativas para vencer a obstruo das vias areas, exigem mais do
ventrculo esquerdo. Desta forma, a maior negativao da presso intrapleural
transmitida para o interstcio, aumentando o acmulo de lquido nos pulmes.
Alm disso, ocorre secreo inapropriada do hormnio anti-diurtico (HAD),
evidenciada por aumento osmolaridade urinria, por osmolaridade srica diminuda
e por nveis plasmticos elevados de HAD. A restrio hdrica pode ser necessria,
geralmente dos valores de manuteno em torno de 2/3 dos usuais.
4. RIBAVIRINA
Trata-se de uma droga antiviral anloga da guanosina, de amplo espectro, que
atua, provavelmente, pela inibio da sntese protica viral. A dose diria,
administrada sob forma de aerossol com dispositivo especial, demanda de 12
a 18 horas. Englund 1 preconiza o esquema de altas doses, administradas de
forma rpida 2-3 vezes ao dia. A droga pode ser usada em circuitos de ventilador
com cuidado, pois pode causar bloqueio de vlvulas devido a sua cristalizao.
Efeitos colaterais, como rasch e broncoespasmo, so incomuns.
O comit de doenas infecciosas da AAP 2 recomendava a utilizao em lactentes
de alto. Posteriormente, essa entidade recomendou que a medicao deveria
ser usada em todos os pacientes de alto risco e nos gravemente acometidos,
que inclua todos com saturao abaixo de 90%. Estas recomendaes geraram
muitas crticas 3 e ainda hoje existe muita controvrsia com relao a estas
indicaes. A mesma AAP recomendava o uso no CTI, para pacientes recebendo
ventilao mecnica 4 , mas os estudos relacionados foram controversos. Um
dos estudos 5 que mostrou resultados positivos utilizou gua destilada como
diluente do placebo, o que pode ter contribudo para o maior perodo de ventilao
observado neste grupo.
Parece ser bem razovel na luz das evidncia atuais de considerar a indicao
principal para pacientes de extrema gravidade e uma indicao menor para os
de alto risco, principalmente os com imunossupresso.
5. BRONCODILATADORES
Uma das reas de maior indefinio no tratamento da bronquiolite se refere
a eficcia dos broncodilatadores. As controvrsias provavelmente resultam
dos diferentes critrios utilizados para o diagnstico da doena. Se os critrios
utilizados so mais restritivos no h suporte na literatura para o uso rotineiro
de broncodilatadores. Vrios estudos no demons-traram qualquer benefcio
decorrente do uso de broncodilatadores simpaticomimticos 6,7,8,9 podendo
em alguns casos ter efeito dele-trios 10,11 . De forma similar no existe
evidncia convincente de que outros broncodilatadores como teofilina 12, 13
e brometo de ipratropium 9,14 sejam igualmente eficazes. Os estudos que suportam
o uso de broncodilatadores 16, 17 optam, geralmente, por critrios mais amplos
de diagnstico da bronquiolite, incluindo todos os episdios de primeira sibilncia
no lactente. Estes estudos geralmente incluem um grupo considervel de lactentes
maiores de 6 meses, apesar de ser no grupo de menores de 6 meses que acontecem
os casos graves de BVA. Admite-se para os maiores de 6 meses, na situao
de difcil distino entre bronquiolite e sibilncia induzida por vrus, uma
prova teraputica com a utilizao de bronco-dilatadores. Alguns estudos bem
conduzidos tm avaliado a administrao de epinefrina racmica com observao
de melhores resultados do que soluo salina ou albuterol na avaliao de
parmetros como saturao de oxignio, score clnico e/ou resistncia pulmonar
.
VENTILAO ASSISTIDA
Indicaes de ventilao mecnica variam de unidade para unidade, mas de modo
geral, a intubao necessria nos casos de apnia recorrente com desaturao
de oxignio significativa ou insuficincia respiratria com acidose persistente
ou hipoxemia apesar de alta concentrao de oxignio. Um aumento dos nveis
de PCO2 acima de 7-8 kPa visto por alguns como indicativo de intubao,
apesar de outros estudos demonstrarem tolerncia com nveis significativamente
elevados sem levar a fadiga, acidose ou hipoxemia no corrigvel. Embora altas
presses possam ser necessrias, deve-se manter a presso mnima necessria
para manter oxigenao adequada com pH arterial acima de 7,2. Este esquema
prefervel em vez da utilizao de parmetros elevados de ventilao mecnica
para correo dos nveis de CO2. Uso de freqncia baixa com tempo expiratrio
prolongado so geralmente necessrias em lactentes com insuficincia respiratria.
A ventilao mecnica devem ser suspensa assim que possvel.
OUTRAS DROGAS
Antibioticoterapia: antibiticos esto raramente indicados, pois a
infeco bacteriana secundria parece ser incomum. Entretanto, infeces associadas
com outras viroses, chlamydia e bacterianas podem ocorrer, de forma que no
irracional a administrao de antibiticos para aqueles muito graves ou
infeco com caractersticas atpicas. Reconhece-se que a infeco por VSR
pode apresentar-se sob a forma de doena septicmica ou sob forma de apnia,
sendo recomendado antibioticoterapia nestes casos.
Corticosterides. Os estudos publicados falham sistematicamente em
mostrar qualquer benefcio com o uso de corticosterides sistmicos ou inalados
(budesonida).
Imunoglobulina: o uso de imunoglobulina endovenosa em um nico estudo
provou resultados similares a ribavirina (melhora mais rpida da oxigenao,
sem efeito na eliminao do vrus e no tempo de hospitalizao. Alguns estudos
avaliando o papel de imunoglobulina humana purificadas com ttulos elevados
de anticorpos neutralizantes anti-VSR, e estudos em animais sugerindo que
a necessidade de doses menores de imunoglobulina quando utilizada a via
tpica.
PREVENO
Os aspectos preventivos principais se baseiam nas medidas que reduzam a inoculao
da equipe hospitalar e a transmisso direta do vrus para outros pacientes.
As vacinas de vrus inativados pela formalina produziram resultados alarmantes
na dcada de 60, pois foram seguidas da manifestao de casos graves. Os resultados
com as vacinas com vrus atenuados ainda so inconclusivos. O uso de Imunoglobulina
RSV-especfica parece promissor.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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duration ribavirin aerosol therapy compared with standard ribavirin therapy
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02. American Academy of Pediatrics Committe on Infectious Disease: Ribavirin
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03. Wald ER,Dashefsky B: Ribavirin: Reed Book Committe recomendations questioned,
Pediatrics 93:672-673,1994
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05. Smith DW, Frankel LR, Mathers LH, Tang AT, Ariagno RL, prober CG: A controlled
trial of aerosol ribavirin in infants receiving mechanical ventilation, N
Eng J Med 325:24-29,1991
06. Phelan PD,Williams HE: Sympathomimetic drugs in acute viral bronchiolitis:
their effect in pulmonary resistance, Paediatrics44:493-497,1969
Fibrose Cstica (Mucoviscidose)
Francisco J. Caldeira Reis
1 - INTRODUO
Fibrose cstica (FC) ou Mucoviscidose, patologia autossmica recessiva,
uma das doenas genticas letais mais comuns dos caucasides: um em cada 3.400
nascidos vivos tem FC e um em cada 25 portador do gene. Este gene encontrado
muito menos freqentemente nos outros grupos raciais. A doena multisistmica
e decorre da mutao no gene que codifica a produo de uma protena - a CFTR
(Cystic Fibrosis Transmembrane Regulator). Em 1989 foi descrito este gene
anmalo responsvel pela FC, mapeado em um nico locus no brao longo do
cromossomo 7. A falta (D) de trs pares de bases, que constituem a fenilalanina
(F), na posio 508 da seqncia de aminoacidos da protena -DF508- a mutao
mais freqente e ocorre em aproximadamente 70% dos cromos-somos dos pacientes,
nos pases anglo-sax-nicos. Nos pases latinos: Europa Setentrional e na
Amrica Latina, a mutao DF508 ocorre aproximadamente em 50% dos cromossomos
dos pacientes caucasides destas regies.
2 - EPIDEMIOLOGIA
A sobrevida mediana dos pacientes com FC tem aumentado gradualmente: em 1990,
a sobrevida mediana foi de quase 28 anos, nos Estados Unidos e no Canad.
No Brasil no dispomos ainda de dados estatsticos confiveis, porm, em Minas
Gerais, a estimativa de sobrevida para 1990 foi de aproximadamente 12 anos
de idade. O aumento da sobrevida se consegue com diagnstico precoce da doena,
quando se identificam as suas formas mais leves. Com o tratamento inicial
mais agressivo pode-se evitar a colonizao crnica pela P. aeruginosa. Os
pacientes que nasceram na dcada de 90 tm chance de sobrevida de quase 50
anos de idade na Dinamarca.
3 - FISIOPATOGENIA
O gene corresponde a um complexo protico situado na membrana celular
que regula o transporte de ons (Cl e Na + ) para dentro e para fora da
clula: corresponde, pois, a um canal inico.
Alm do bloqueio da excreo de cloro, pelo canal de cloro, existe tambm
o aumento, em at trs vezes, na reabsoro de sdio atravs do epitlio apical
das vias areas dos pacientes com FC. O aumento da reabsoro de sdio e
a diminuio na excreo de
cloreto reduziro a quantidade de gua no fludo periciliar. O fludo se torna
hiperosmolar e isto faz com que as mucinas se tornem espessas e desidratadas,
explicando o porqu da viscosidade elevada das secrees respiratrias. Estas
secrees espessas impedem a ventilao alveolar (obstruo bronquiolar),
facilitando a colonizao crnica pelas bactrias.
Deve-se notar que a disfuno nos ductos sudorparos diferente das alteraes
presentes no epitlio respiratrio. O epitlio do ducto sudorparo tem uma
permeabilidade reduzida para absoro de cloreto; assim o sdio tambm no
reabsorvido para manter o eqilbrio inico. Esta anormalidade do eqilbrio
inico leva diretamente ao aumento da concentrao de cloreto (e de sdio)
no suor.
4 - MANIFESTAES CLNICAS
A doena acomete vrios rgos, principalmente os pulmes, os seios paranasais
e, em seguida, o aparelho gastrintestinal, o sistema hepatobiliar, glndulas
sudorparas e o aparelho reprodutor. A maioria dos pacientes morre de problemas
respiratrios.
4a - PROBLEMAS PULMONARES
As vias respiratrias so acometidas em mais de 90% dos pacientes com FC.
Acometimento pulmonar e suas complicaes so as causas mais comuns de morte
prematura. As vias areas inferiores dos pacientes so inicialmente colonizadas
por Staphylococcus aureus e, mais tarde, na vida, pela variante mucide de
Pseudomonas aeruginosa, que so difceis de serem erradicadas, determinando,
com o tempo, colonizao crnica.
As bactrias se instalam na mucosa respiratria por adeso ao epitlio brnquico;
a seguir se multiplicam, levando colonizao, sem ainda atingir a submucosa:
nesta situao, a cultura de escarro pode ser positiva; em seguida, penetrando
mais, as bactrias ultrapassam a barreira epitelial e elicitam os mecanismos
imunolgicos sistmicos causando uma inflamao crnica. Aparecendo as manifestaes
clnicas, com localizao variada do processo patolgico, ocorre a doena.
A infeco crnica acarreta sinusite e bronquites crnicas, alm de bronquectasias,
fibrose pulmonar difusa, insuficincia respiratria aguda e crnica, com hipertenso
pulmonar e cor pulmonale. A radiografia torcica mostra condensaes, geralmente
no lobo superior direito, mas com a progresso da doena, as alteraes encontram-se
difusas. O distrbio respiratrio pode ser agravado pelo apare-cimento de
hiper-reatividade das vias areas (diagnstico diferencial com asma de difcil
controle e bronquiolite). Hemoptise, pneu-motrax e aspergilose broncopulmonar
alrgica so complicaes raras.
4b - PROBLEMAS DIGESTIVOS
A principal manifestao digestiva no recm nascido o leo meconial ou qualquer
tipo de obstruo intestinal.
M absoro intestinal de gorduras, por falta de produo de enzimas pancreticos,
ocorrem em 80%-85% dos pacientes. Desenvolvem diabetes melitus 5%-10% dos
pacientes de idade mais avanada. Outros problemas gastro-intestinais incluem:
equivalente ileal, refluxo gastroesofgico e prolapso retal. Doenas hepatobiliares
clinicamente significativas ocorrem em 5% dos casos, na forma de cirrose focal
ou biliar. Pode haver hipertenso portal com varizes esofageanas.
4c - OUTRAS MANIFESTAES Homens com FC so estreis em 98% dos casos, devido
azoospermia, como conse-quncia de obstruo do canal deferente. A infertilidade
na mulher com FC menos grave -30% a 40% - das pacientes com FC podem engravidar.
O muco cervical espessado pode impedir a penetrao dos espermatozides. Historicamente,
a limitao pulmonar pode refletir na gravidez, mas, com a melhoria do tratamento
pulmonar, mais de 100 mulheres com FC j tinham engravidado em 1989, a maioria
das quais teve bebs viveis e sadios.
A artropatia, de origem imunolgica, pode ser observada em 9% dos pacientes
FC mais velhos. Responde bem medicao anti-inflamatria no esteride,
o que no acontece na osteoartropatia hipertrfica (4% dos casos), que deformante
e no se sabe a causa.
5 - DIAGNSTICO
Os critrios tradicionais utilizados at hoje para o diagnstico de
FC so:
1 - problemas respiratrios obstrutivos crnicos e de evoluo progressiva,
ou
2 - problemas gastrintestinais, hepticos ou pancreticos crnicos, ou
3 - histria familiar de FC, sempre acom-panhados de
4 - valores elevados de cloretos (e/ou sdio) no suor (acima de 60 mEq/l),
em pelo menos duas amostras, com mais de 100 mg de suor cada e em ocasies
diferentes.
O diagnstico diferencial vai depender da idade e do modo de apresentao
da doena. Os diagnsticos mais comuns incluem: deficincia do desenvolvimento
fsico: baixo ganho poderal ou estatural, bronquiolite ou bronquite, asma
e sinusite de difcil controle, tuberculose, diarria crnica (doena celaca),
CIDA/AIDS.
O diagnstico gentico relativamente restrito, na FC, por existirem mais
de 800 mutaes j descritas na literatura e pela baixa prevalncia da mutao
mais importante - DF508 - no nosso meio: 47% nos FC caucasides.
6 - TRATAMENTO
Avaliao geral:
O principal motivo da centralizao do atendimento aos pacientes com Fibrose
Cstica e da normatizao da conduta melhorar a sua sobrevida. Outro fator
o atendimento por meio de equipe multiprofissional nos centros regionais
especializados no diagnstico e tratamento da doena. Geralmente esta equipe
composta por mdicos, enfermeiras, assistente social, nutricionistas, fisiotera-peutas
e terapeuta ocupacional e psiclogos. A avaliao do paciente com Fibrose
Cstica dever ser mensal nos casos mais graves e, no primeiro ano de vida,
trimestral nos casos moderados e, no mnimo, anual nos casos leves ou oligosintomticos.
Em cada consulta deve -se observar o seguinte:
Avaliao clnica adequada: nutricional e respiratria;
Realizar saturimetria;
Cultura do escarro, quando houver secreo; em crianas menores fazer aspirado
traqueal (fisioterapeuta);
Radiografia de trax: PA e lateral: nas exacerbaes e, pelo menos, uma
vez ao ano;
Avaliao hematolgica e heptica: anual, no mnimo;
Protenas totais e fracionadas e imunoglo-bulinas, na primeira consulta;
Avaliao da funo pulmonar pela espi-rometria, quando a criana
for maior de 6 anos de idade (no mnimo uma vez ao ano).
Avaliao Nutricional:
A necessidade calrica diria de 130% a 170% das necessidades normais. Deve
ser uma dieta hipercalrica, sem restries alimentares, com elevado teor
de protenas e contedo normal ou aumentado de gorduras. Para que se consiga
a absoro adequada dos alimentos, h neces-sidade de se usar enzimas pancreticas
de liberao intestinal. Estas enzimas devem ser usadas em doses individualizadas,
de tal forma que o paciente apresente dejees (fezes consis-tentes e sem
gordura visvel) uma ou no mximo duas vezes ao dia. Os grnulos das enzimas
so de liberao entrica, no podem ser mastigados e so dados junto com
os alimentos. Crianas maiores podem engolir as cpsulas. A complementao
polivitamnica (ADEK) deve ser feita de rotina nos pacientes com insuficincia
pancretica, no dobro da dose usual diria. A vitamina E pode ser dada semanalmente
e a vitamina K usada em alguns casos. O ferro deve ser dado como profiltico
em crianas menores de dois anos ou quando houver exame compatvel com anemia
ferropriva. Persistindo os problemas nutricionais apesar destas medidas, devemos
avaliar as seguintes opes: sonda gstrica ou enteral, para alimentao noturna;
gastrostomia ou jejunostomia para alimentao contnua; adio de alimentos
de elevado teor calrico; nutrio parenteral parcial ou total. Os triglicrides
de cadeia mdia (TCM) devem ser acrescentados dieta, caso haja necessidade.
A cada consulta devemos calcular as calorias ingeridas pelo paciente tentando
equilibrar a sua dieta. Deve-se ainda registrar, em cada consulta, o peso,
a estatura, e o permetro ceflico, em grfico apropriado (M.Sade).
Avaliao Respiratria:
Secrees:
As secrees respiratrias dos pacientes com FC so muito espessas e difceis
de serem eliminadas. Por isso, a fisioterapia muito importante para mobilizar
e eliminar essas secrees, ensinar o paciente a tossir e respirar de maneira
eficaz. Deve ser iniciada logo aps o diagnstico e mantida em escala mnima
(uma vez ao dia), mesmo se o paciente estiver bem. Pacientes que produzem
escarro devem ser submetidos fisioterapia de 2 a 3 vezes ao dia. Durante
as visitas clnicas, devem ser checados os exerccios bsicos pelo fisioterapeuta.
Os exerccios fsicos devem ser incentivados, pois auxiliam a eliminao das
secrees pulmonares e estimulam os msculos respiratrios. Devem ser feitos
de maneira regular, sendo os mais indicados a natao e a corrida, respeitando-se
o limite fsico de cada paciente.
Devido ao grande contedo de DNA nas secrees inflamatrias dos pacientes
com FC, tem-se utilizado a DNA se como mtodo eficaz de melhorar a obstruo
brnquica.
Infeco/ Inflamao:
Refere-se especialmente ao tratamento adequado das infeces respiratrias.
A identificao da primeira colonizao por S. aureus ou P. aeruginosa essencial
para se conseguir a erradicao das mesmas, nos meses subsequentes: ou seja,
tentar evitar a colonizao crnica. O isolamento de coortes por bactria
colonizada importante para no haver infeco cruzada. Nas exacerbaes
devem-se usar os antibiticos de acordo com o resultado da cultura de escarro.
As principais bactrias patognicas para os pacientes com FC so: Staphylococcus
aureus, Pseudomonas aeruginosa - cepa mucide, Burkholderia cepacea
e Stenotrophomonas maltophilia.
A conduta ideal frente primeira cultura de escarro com P. aeruginosa:
INTERNAO, na tentativa de erradicao da mesma com tratamento endovenoso
por 21 dias com Ceftazidime + Amicacina. Deve ser feito controle clnico e
bacteriolgico mensal nos prximos 6 meses. Persistindo a cultura positiva,
durante este perodo, usar Ciprofloxacina VO+ Amicacina inalatria a cada
ms.
Em caso de colonizao crnica devida a P. aeruginosa, programar internao
eletiva, 3 a 4 vezes por ano, para aplicao de antibiticos por via endovenosa,
por 14 dias, para tentar diminuir a colonizao e a multiplicao bacteriana
e, com isto, melhorar a sobrevida. A alternativa vlida o uso de Ciprofloxacina
VO+ Amicacina inalatria por 21 dias.
As exacerbaes da infeco pulmonar crnica devem ser tratadas com
fisioterapia respi-ratria intensiva, antibiticos, de preferncia por via
endovenosa, alm de broncodilatadores. Hemoptise na FC rara, mas pode ser
macia e a funo pulmonar diminuda pode limitar as opes teraputicas.
Entubao endotraqueal com tamponamento pode ser utilizada como medida temporria.
Embolizao da artria brnquica d bons resultados, porm em curto espao
de tempo. Pneumotrax ocorre em 23% dos pacientes e recorre em 70% dos casos.
Obliterao do espao pleural para prevenir a recorrncia recomendada. O
procedimento de escolha depender do potencial do paciente de receber transplante
de pulmo.
Sinusites ocorrem em cerca de 90% dos pacientes com FC e polipose nasal em
20%. Tratamento feito com antibiticos e com esterides inalados mas a drenagem
cirrgica pode ser necessria.
Caso hajam manifestaes respiratrias do tipo bronquiolite de repetio ou
asmatiforme, tentar beta-2 adrenrgicos e, se necessrio, corticides por
via inalatria ou por via oral, em dias alternados, na dose de 1 mg/kg, no
perodo mximo de 6 meses, em caso de resposta evidente. Em crianas maiores,
avaliar resposta broncodilatadora com espirometria.
Caso haja refluxo gastro esofgico (RGE) associado: usar posio elevada de
45 graus, procinticos digestivos (domperidona, bromoprida ou cisaprida) e
anticidos (cimetidina).
Imunizaes:
Seguir o calendrio vacinal rotineiro. Sempre que possvel, incluir imunizao
contra hemfilo tipo B, pneumococos (23 serotipos) e vrus da influenza A
e B (antigripal).
7 - PERSPECTIVAS
At 1998, mais de 400 pacientes com Fibrose Cstica, no mundo todo, sofreram
transplante unilateral, bilateral seqencial de pulmo ou, em bloco, de corao
e pulmo, com sobrevida aproximada de 5 anos em 50% dos casos.
Novos tratamentos esto sendo estudados e propostos, incluindo antiproteases,
amilo-rida (bloqueador do canal de sdio) associada a UTP ou ADP, alm de
DNAse, um agente mucoltico. A insero da CFTR corrigida em animais, usando
adenovirus modificado, com efetiva transcrio gnica sugere que a terapia
gentica pode ser possvel no futuro.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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2. Hodson ME and Geddes DM - CYSTIC FIBROSIS - 1st Edition - Chapman Hall
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5. Reis FJC e Damaceno N - FIBROSE CSTICA - Jornal de Pediatria - Suplemento
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6. Frederiksen B, Koch C and Hoiby N. - Changing epidemiology of Pseudomonas
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Pulmonology 28: 159-166, 1999.
7. Morgan WJ, Butler SM et al. - Epidemiologic Study of Cystic Fibrosis: Design
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1999.
OTORRINOLARINGOLOGIA
RINITES
Marcelo Peixoto
As rinites so as alteraes inflamatrias da mucosa nasal. Representam uma
das manifes-taes clnicas mais comuns em pediatria. Sendo o nariz a porta
de entrada para todo o ar inspirado, a mucosa nasal entra em contato com uma
enorme variedade de partculas e microor-ganismos que determinam grau varivel
de resposta a sua presena. A mucosa nasal tem a funo de filtrar, purificar,
aquecer e umidificar o ar inspirado, caractersticas essenciais para o mecanismo
respiratrio. Quando entra em contato com um agente patognico, a mucosa nasal
responde com o aumento de sua funo, tornando-se hipertrofiada e hipersecretora,
determinando o aparecimento dos sintomais habituais das rinites: obstruo
nasal, rinorria, prurido e crises esternutatrias (espirros).
Alm dos sintomas especficos, as manifes-taes das rinites refletem as alteraes
da qualidade do ar inspirado, levando baixa oxigenao dos tecidos, sono
difcil, cansao, irritabilidade e dificuldade de concentrao. A respirao
bucal decorrente da obstruo nasal leva inspirao de ar no preparado,
frio e seco, causando o ressecamento da cavidade oral, faringe e via respiratria
inferior, aumentando tambm a suscetibilidade destas regies aos processos
inflamatrios. A obstruo nasal e a conseqente respirao bucal prolongada
levaro tambm a alteraes importantes no cresci-mento da face, pela diminuio
do estmulo ao crescimento do tero mdio em relao ao tero inferior, causando
alteraes na respirao, desenvolvimento da arcada dentria, mastigao,
deglutio e fonao.
Classificao
As rinites podem ser classificadas conforme a durao dos sintomas, em agudas
e crnicas, ou conforme sua etiologia, em infecciosas, alrgicas e medicamentosas.
Existem ainda diversos tipos de rinites relacionadas a doenas especficas.
As rinites infecciosas geralmente so agudas, apresen-tando evoluo benigna.
As rinites alrgicas cursam com alterao crnica da mucosa nasal, e se manifestam
por perodos de agudizao associados a uma fase crnica de sintomas mais
ou menos evidentes.
RINITES INFECCIOSAS
Introduo
As rinites infecciosas podem ser classificadas em virais ou bacterianas. A
doena geralmente tem incio agudo. Os sintomas das rinites virais variam
de acordo com o agente patognico ( Rinovrus, Influenzae, Parainfluenzae,
entre outros). O resfriado comum o quadro viral respiratrio mais freqente
na infncia; a populao infantil apresenta em mdia de 3 a 6 episdios de
resfriado comum ao ano. A doena auto-limitada e os sintomas, caracterizados
por febre baixa, congesto nasal, prurido e coriza aquosa, podem persistir
por at uma semana. A persistncia de sintomatologia por perodos mais prolongados
pode indicar comprometimento sinusal. O contato com outras crianas e a presena
de suscetibilidade indivi-dual associada a outros fatores de risco podem tornar
os episdios virais mais freqentes e permitir o aparecimento de infeces
secundrias (rinites bacterianas), causadas principalmente pelos Streptococcus
pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moraxela catarrhalis.
Diagnstico
O diagnstico baseado no exame fsico, na histria e na presena de sinais
clnicos de manifestaes virais associadas. O rinoscopia anterior ir mostrar
hiperemia e hipertrofia da mucosa nasal. O aspecto da secreo nasal (rinorria)
importante para o diagnstico diferencial. Rinorria muco-purulenta mais
comum nos processos bacterianos. A persistncia de rinorria muco-purulenta
por mais de 7 dias um dos fatores indicativos de comprometimento sinusal
associado.
Tratamento
O tratamento dos processos virais sintomtico, com utilizao de analgsicos
e antitrmicos. A doena auto-limitada e a mucosa nasal defende-se sozinha.
No necessria a utilizao de solues nasais, mesmo salinas, que devem
ser reservadas para os casos de obstruo nasal intensa, levando a dificuldades
de alimentao e sono. Especial ateno deve ser dada para as rinites dos
recm-nascidos e lactentes, considerando o pequeno volume das fossas nasais
destes pacientes. A obstruo nasal pode causar desconforto respiratrio,
respirao ruidosa e dificuldades na amamentao. Nestes casos a lavagem das
fossas nasais com soluo salina torna-se importante. A utilizao de vasoconstritores
tpicos danosa, pelo risco de instabilidade cardiorrespiratria. As rinites
bacterianas devem ser tratadas com antibiticos. A droga de escolha a amoxacilina.
No caso de alergia a penicilina, utilizam-se os macroldeos.
RINITES ALRGICAS
Introduo
As rinites alrgicas representam um captulo a parte nas doenas respiratrias.
As rinites so as manifestaes mais comuns dos distrbios alrgicos. A predisposio
familiar evidente. Os principais sintomas da rinite alrgica so os espirros,
prurido nasal, rinorria aquosa e obstruo nasal, nessa ordem. So comuns
a presena de sintomas de prurido ocular, lacrimejamento e reao conjuntival.
caracterstico o aparecimento dos sintomas logo aps o contato com algum
agente alergnico. Nas crianas pequenas os alimentos devem ser considerados
como fonte alergnica. Nas crianas maiores os inalantes representam o principal
grupo.
Manifestaes clnicas
As manifestaes alrgicas da mucosa nasal dividem-se basicamente em 2 tipos,
dependendo do tipo da reao alrgica envolvida. Na fase aguda, desencadeada
pelo contato com o alrgeno, predominam a fase secretora da mucosa nasal,
manifestada por rinorria aguosa eosinoflica, prurido e espirros. Aps a
fase aguda, a atopia continua se manifestando por meio de mecanismos de hipersensibilidade
tardia, fase crnica da rinite atpica, em que predominam os sintomas inflamatrios,
determinando edema de mucosa e obstruo nasal. As crises agudas repetem-se
em intervalos variados, dependendo da susceti-bilidade individual e exposio
ao alrgeno.
Diagnstico
O diagnstico firmado por meio da histria e do exame fsico. A rinoscopia
anterior caracterstica, mostrando mucosa hipertrofiada com palidez acentuada.
Nas crises agudas, evidente a rinorria aquosa de aspecto eosinoflico,
com irritao da pele que circunda as narinas. A prega nasal transversa
mais freqente aps os 4 anos. O exame laboratorial do muco nasal revela presena
de eosinfilia (10% a 20%) e numerosos macrfagos. A dosagem srica de IgE
geralmente est elevada. Os testes cutneos in vivo e in vitro revelam
a produo de IgE quando em contato com alrgenos especficos.
Tratamento
O tratamento das rinopatias alrgicas envolve a identificao e melhor remoo
possvel dos agentes alergnicos, o tratamento medicamentoso e a imunoterapia
especfica, sendo que a higiene ambiental a principal conduta no tratamento
da criana atpica. O tratamento medicamentoso no visa curar o processo alrgico,
mas aliviar os sintomas. As principais opes so os anti-histamnicos e a
corticoterapia tpica. Eventualmente necessrio a utilizao de corticoterapia
sistmica.
Os anti-histamnicos esto indicados na fase aguda, na presena de rinorria
evidente. A associao de anti-histamnicos com descon-gestionantes orais
pode ser necessria nos casos de rinorria e obstruo mais intensa. Os descongestionantes
orais no devem ser utilizados por perodos superiores a 5 dias, pois determinam
paralisao do batimento ciliar da mucosa nasal, retardando a eliminao da
secreo. O uso prolongado tambm pode causar efeito rebote na sua suspenso,
com piora dos sintomas obstrutivos. Deve-se utilizar preferencialmente os
anti-histamnicos de 2 gerao, pois causam menos sedao. importante lembrar
que em crianas com menos de 2 anos, os anti-histamnicos, especialmente os
de ao prolongada, podem apresentar efeito paradoxal, causando agitao e
confuso mental. Os anti-histamnicos locais no esto indicados para os quadros
de rinite aguda. O cromoglicado pode ser utilizado com profiltico, nos casos
com asma associada. A azelastina de difcil utilizao na criana, conside-rando
a freqncia de utilizao e o ardor caracterstico que acompanha a aplicao.
Os descongestionantes locais no devem ser utilizados em criana.
A corticoterapia tpica um medicamento importante no tratamento das rinites,
princi-palmente na fase obstrutiva. O medicamento deve ser utilizado por um
perodo de 30 dias, podendo ser prolongado em casos especiais. Quando a resposta
inicial pobre, no existe benefcio em prolongar o tratamento.
Os corticides sistmicos podem ser necessrios nos quadros de obstruo nasal
severa ou naqueles rebeldes ao tratamento.
Uma opo nesses casos iniciar a corticoterapia sistmica por at uma semana,
at a melhora dos sintomas e prosseguir com medicao tpica, sem necessidade
de retirada gradual do corticosteride sistmico.
A higiene nasal com soluo salina importante nos casos de rinorria aquosa
persistente e acmulo de secreo nas fossas nasais, permitindo a umidificao,
amolecimento e drenagem fisiolgica das secrees.
A imunoterapia, utilizada por via subcutnea ou intradrmica, uma opo
importante no controle das rinites alrgicas, aumentando de forma variada
o perodo entre as crises. Deve ser utilizada por tempo prolongado. Os benefcios
das imunoterapias tpica, sublingual ou intranasal, so controversos.
A polipose nasal pode estar associada ou mesmo ser complicao das rinites
prolongadas. Quando persistente, deve ser tratada cirurgicamente. A recidiva
freqente.
RINITES MEDICAMENTOSAS
Merecem ser includas num captulo a parte pelo componente iatrognico na
sua evoluo. As rinites medicamentosas so causadas principalmente pelo uso
prolongado de medi-cao irritante da mucosa nasal. No deve ser confundida
com a reao da mucosa nasal que pode ser desencadeada por alergia ao uso
de diversos medicamentos. A droga mais comumente relacionada irritao local
do nariz o uso excessivo de medicao vasoconstritora local. A utilizao
por mais de 5 dias j determina alterao importante no mecanismo de proteo
muco-ciliar. Com o trmino da medicao, o retorno da fisiologia normal da
mucosa pode demorar de 7 a 14 dias. A utilizao da medicao por perodos
mais prolongados (3 a 4 semanas) leva interrrupo e alterao significativa
do fluxo sangneo para a mucosa nasal, levando a alteraes estruturais importantes
da parede da mucosa nasal. Nesses casos, pode ser necessrio a retirada gradativa
do medica-mento, com necessidade freqente de utilizao de corticoterapia
de suporte. Diversos outros medicamentos, quando utilizados por perodos excessivos,
podem irritar a mucosa, inclusive os corticosterides tpicos.
RINITES CRNICAS
As rinites crnicas so causadas por modificaes permanentes das caractersticas
da mucosa nasal. As rinites alrgicas apresentam em sua evoluo uma fase
crnica, cujo diagnstico e tratamento foi abordado anteriormente. As rinites
crnicas no alrgicas representam quadro clnico distinto, podendo ou no
evoluir a partir de uma rinite aguda no tratada ou de evoluo arrastada.
As rinites crnicas no alrgicas geralmente esto associadas a outros fatores
que determinam a manuteno da obstruo nasal. A alterao crnica da mucosa
nasal pode levar a uma hipertrofia irreversvel (rinite crnica hipertrfica)
ou atrofia permanente da mucosa (rinite crnica atrfica), que geralmente
causada por destruio da mucosa nasal durante processo agudo invasivo.
Outro tipo especial de rinite a chamada rinite vasomotora, na qual existe
uma reao exagerada da mucosa nasal ao estmulo, apresentando-se hipertrofiada
e hiperemiada. Acredita-se que este quadro possa estar associado a uma hiperatividade
local do sistmica nervoso autnomo.
Diagnstico
A histria e o exame clnico so importantes para identificar a presena de
doenas associadas e afastar a histria de atopia. O exame cuidadoso das fossas
nasais, realizado pelo especialista fundamental para a observao do tipo
de obstruo, da colorao da mucosa nasal e do aspecto da secreo nasal.
A realizao da endoscopia nasal essencial para a identificao da causa
da obstruo e dos possveis fatores obstrutivos associados. Os mais comuns
so a presena de desvio de septo nasal, hipertrofia de adenides e polipose
nasal. O grau de obstruo da mucosa nasal variado, podendo ou no ser simtrico.
Todo a concha nasal pode estar hipertrofiada, ou a obstruo pode ser causada
apenas por uma hipertrofia localizada, por exemplo, na cauda das conchas nasais.
A simples rinoscopia anterior no permite observar esta obstruo. No incomum
haver associao de fatores, como um paciente atpico apresentando obstruo
nasal tambm associada a desvio de septo nasal ou hipertrofia de adenides.
O exame endoscpico persiste uma observao completa da mucosa nasal. Geralmente
o estudo radiolgico dispensvel, salvo quando se suspeita de complicaes
fora das cavidades naso-sinusais.
Tratamento
O tratamento das rinites crnicas visa permitir desobstruir o nariz. O controle
das infeces, quando presentes, no suficiente. preciso restabelecer
a respirao pelo nariz, evitando as seqelas do respirador bucal. O tratamento
medicamentoso similar ao das rinopatias alrgicas. Muitas vezes necessrio
corrigir cirurgicamente as alteraes morfolgicas associadas. A adenoidectomia,
quando necessrio, pode ser realizada em qualquer idade. J a correo do
desvio de septo nasal s deve ser realizada em crianas pequenas quando a
obstruo nasal for severa.
COMPLICAES
As complicaes da rinites esto relacionadas ao grau e ao tempo de obstruo
nasal. A continuidade da mucosa nasal com a mucosa dos seios paranasais e
da orelha mdia, faz com que as sinusites e a otite mdia estejam naturalmente
relacionadas com a doena da mucosa nasal. Portanto, as sinusites e otites
de repetio so complicaes naturais das rinites. Essas patologias no sero
discutidas neste momento.
A localizao caracterstica das terminaes do nervo olfatrio na parte superior
(estreita) da cavidade nasal, faz com que com o bloqueio da cavidade nasal
o ar no chegue aos filetes olfatrios, determinando a diminuio ou o desaparecimento
do olfato. A cronicidade da obstruo pode levar a alterao permanente do
epitlio olfatrio, tornando a perda de olfato irreversvel.
A mucosa nasal prolongada pode tambm levar a degenerao da mucosa normal,
formando a chamada polipose nasal.
Alm disso, a mucosa hipertrofiada e permanentemente obstruda, com ou sem
polipose, poder tambm levar ao bloqueio do meato mdio e consequentemente
dos stios dos seios paranasais, alm dos orifcios da tuba auditiva, posteriormente.
As alteraes clnicas dependero do grau da obstruo nasal e da extenso
da polipose para o seios paranasais, podendo tambm determinar o aparecimento
de sinusites e/ou otite mdia de repetio.
A obstruo da tuba auditiva pode levar tambm ao aparecimento de secreo
na orelha mdia (otite mdia serosa), que pode cursar sem o aparecimento de
otite mdia aguda, ou seja, silenciosamente. A otite mdia serosa determina
diminuio de audio na criana, e pode ser um fator silencioso associado
ao atraso e o distrbio da linguagem e aprendizado na criana. A obstruo
nasal crnica por si s pode ser considerada uma complicao das rinites.
Provavelmente a obstruo nasal crnica a queixa clnica persistente mais
comum entre crianas de qualquer idade. Infelizmente, nem sempre a queixa
considerada pertinente e adequadamente avaliada e tratada. A obstruo nasal
muitas vezes considerada como uma resposta normal da criana a estmulos
ambientais. Isto verdade, desde que se manifeste em curto perodo de tempo
e no leve a bloqueio da respirao nasal. As implicaes de uma obstruo
nasal prolongada, espe-cialmente em crianas pequenas, vo muito alm da dificuldade
em respirar pelo nariz. A obstruo nasal crnica est associada respirao
bucal de suplncia. Juntos, iro determinar alteraes importantes no crescimento
facial. O crescimento do tero mdio da face deter-minada pela funo do
nariz, enquanto o crescimento do tero inferior da face determinada pela
funo mastigatria. Nariz entupido e respirao bucal, portanto, determinaro
crescimento maior do tero inferior da face em relao ao tero mdio. Isto
ocasionar alongamento da face, alargamento das estruturas oro-faciais, deformidades
palatinas, dentrias e naso-septais. A criana perpetuar sua respirao bucal,
agora associada a alteraes estruturais da face. Alm disso, a obstruo
nasal crnica fator determinante das patologias sinusais e doenas da orelha
mdia.
Portanto, a criana que no respira pelo nariz deve ser avaliada cuidadosamente,
e no apenas aquelas que apresentam infeces de vias areas superiores.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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Otite Mdia Recorrente
Moacyr Saffer
En cualquier medicina, existe al principio la palabra, despus la hierba,
y por ltimo el cuchillo.
(Avicenne)
Imunologia do ouvido mdio
1 - Ouvido mdio normal possui atividade enzimtica protetora e um sistema
mucociliar de defesa.
2 - Existem poucas clulas imunocompetentes por reduzida estimulao antignica.
3 - Atividade imunolgica pode resultar em proteo ou originar imunopatologia.
4 - Imunocomplexos podem causar inflamao que geram exudatos.
Tratamento da Otite Media Aguda (OMA)
A mudana nas sensibilidade dos patogenos no ouvido mdio sugerem eventualmente
o uso de novos antibiticos. A dificuldade na demonstrao da eficincia teraputica
o alto grau de cura expontnea (81%ou mais) da OMA.
FALHAS NO TRATAMENTO
Em muitos casos de insucesso, a secreo estril e a inflamao persiste
por razes desconhecidas, possivelmente devido a mediadores inflamatrios
na cavidade e reas vizinhas.
Se os sintomas e sinais de OMA persistirem apesar do tratamento antibiocrobiano,
no h acordo universal quanto a razo para escolha de outro antibitico.
Crianas de alto risco:
Menores de 2 anos
Primeiro episdio de OMA antes dos 6 meses
3 episdios de OMA em 6 meses ou 4 em l ano
Freqentar uma creche grande
Crianas de baixo risco:
Idade 2 anos ou mais
Sem episdios recorrentes de OMA Ausncia de OMCS
Envolvimento de um ouvido apenas
Freqentar uma creche pequena
OTITE MDIA RECORRENTE
Consideraes sobre o diagnstico
Definio
Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) a ocorrncia de 3 episdios de OMA em
6 meses ou 4 em 12 meses.
Uniformidade de conceitos
Aguda refere-se histologicamente a uma infiltra-o por polimorfonucleares
e clinicamente apresenta sinais clssicos de inflamao aguda. Crnica compreende
a infiltrao do mucope-riosteo por clulas redondas e onde os aspectos clnicos
so menos marcantes.
Para o diagnostico de Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) mandatrio
distinguir entre uma inflamao aguda(OMA) episdica, que se repete num curto
espao de tempo, e uma agudizao de um processo crnico (OMCS).
OTITE MDIA AGUDA RECORRENTE
A otoscopia define a histria natural do ciclo patolgico da otite media
aguda recorrente no qual a membrana timpnica apresenta-se sob mltiplos aspectos
que vo se modificando conforme o momento do exame (conceito do continuum).
Estes aspectos variados observados pela otoscopia tanto podem modificar-se
no sentido de uma evoluo benigna de cura como de agravamento.
A Otite Mdia Aguda Recorrente (OMAR) um importante componente no conceito
da doena do ouvido mdio, onde uma forma de Otite Mdia se encaixa na outra.
Duas formas de apresentao:
a - Entre os episdios de inflamao aguda h um perodo de cura, com ouvido
mdio normal e caixa plenamente arejada.
b - Os episdios inflamatrios representam a repetio agudizada de uma inflamao
crnica na qual persiste sempre uma secreo residual.
Preveno da OMAR
Aleitamento materno
Evitar fumo em casa
Famlia ou pequenas creches
Profilaxia Adenoidectomia
Tubos de ventilao
Vacinas
Alergia
Vrus e Bactrias
Estudos epidemiolgicos mostraram uma alta correlao entre OMA, o inverno,
IVAS e creches.
Bactrias - Existem duas indicaes de que a o ouvido mdio est protegido
por dois mecanismos imunolgicos de defesa, ambos local e sistmico: as bactrias
causadoras de OMA so eliminadas do ouvido por meio de anticorpos especficos
e as infeces diminuem com a idade.
Antibiticos - sua efetividade est associada sua concentrao no ouvido
mdio. Uma falha no tratamento por 3 - 5 dias no significa necessariamente
um organismo resistente, mas pode ser uma falha na droga em atingir a concentrao
efetiva.
A aspirao do lquido, um procedimento de consultrio, importante na orientao
teraputica especificamente para aquela criana que no melhora.
No possvel distinguir entre a secreo residual, existente sempre no ouvido
mdio aps episdio de uma OMA, daquela secretada pela mucosa alterada (secretante)
de uma OMCS, a no ser com acompanhamento constante pela otoscopia desde o
incio do processo.
A permanncia da secreo no ouvido mdio por semanas e meses decorre da falha
na eliminao das secrees pela disfuno dos clios, edema da mucosa, viscosidade
das secrees e gradiente de presso alterado.
NADA CURA OTITE MDIA A NO SER O CRESCIMENTO DA CRIANA: O OUVIDO CRESCE,
A TROMPA DE EUSTQUIO CRESCE, O SISTEMA IMUNE CRESCE.
Gates, 1995.
Tratamento da Otite Mdia Aguda Bacteriana (efeito Pollyanna).
Um percentual diagnosticado clinicamente vai curar sozinho, independentemente
do tratamento.
No diagnstico incorreto (choro, mo no ouvido) este percentual no vai responder
a nenhum antibitico.
A eficcia relativa de um antibitico visto entre os casos resolvidos espontaneamente
e os no-tratveis.
Rinossinusite: Diagnstico e Tratamento
Luiza H. Endo
A rinossinusite da criana apresenta particularidades que devem ser consideradas:
sintomatologia variada, diferente da do adulto e a avaliao radiolgica com
limitaes. Existe a influncia de alguns fatores na etiopatogenia e sintomatologia
das rinossinusites da criana: os seios paranasais esto em franco desenvolvimento;
a criana est em fase de maturao do sistema imunolgico; ela mais propensa
s infeces de vias areas superiores (IVAS); apresenta vegetaes adenoideanas
que podem ser fonte de infeces; alm da presena mais comum do refluxo gastroesofgico,
fibrose cstica e outras patologias comuns para esta faixa de idade.
Os seios etmoidais comeam a se formar no 4 ms de gestao, so constitudas
por um grupo de clulas individuais com stio prprio, apresentam aerao
varivel, sendo que as clulas anteriores so menores e as posterio-res maiores.
So as primeiras a serem formadas, sendo que, ao nascimento, elas j esto
presentes crescendo rapidamente nos primeiros anos de vida.
Os seios maxilares tm seu incio de formao no 2 trimestre de vida intra-uterina
sendo que, ao nascimento, apresenta forma de fenda, cujo assoalho corresponde
ao corneto inferior. Com um ano de idade, os seios maxilares situam-se abaixo
da rbita na posio correspondente ao nervo infra-orbitrio; dos 3 a 4 anos
crescem em largura e, dos 7 a 9 anos, cresce inferior-mente acompanhando a
erupo dos dentes permanentes. O assoalho do seio maxilar corresponde ao
nvel do assoalho da cavidade nasal dos 10 a 12 anos.
Os seios frontais comeam a se desenvolver a partir da projeo de uma clula
etmoidal entre o 6 e 12 ms de vida ps fetal. Ao nascimen- to, portanto,
no reconhecvel. Apresenta variabilidade de crescimento, sendo que 80%
dos indivduos tm seios frontais assimtricos, 4% agenesia e/ou hipoplasia.
Os seios esfenoidais iniciam o seu desenvol-vimento no 4 ms de vida fetal,
permanecem na posio nasal at o 4 ano de vida, e, dos 6 aos 7 anos, estabelece
uma ntima relao com o pterigide.
Dependendo da idade da criana teremos diferentes seios acometidos e, portanto,
necessrio ter o conhecimento da evoluo destes seios ao longo da vida
da criana.
A rinossinusite, na criana, pode apresentar sintomas isolados, associados
e, alm disso, sintomas que so mais comuns dependentes da idade. Encontramos
casos de rinossinusite onde a febre aparece como nico sintoma assim como
a halitose e/ou a inapetncia. comum a associao de tosse (diurna e/ou
noturna), obstruo nasal, e rinorria purulenta. A cefalia, muito comum
no adulto, no o sintoma principal na criana e s comea a ser referida
pela criana a partir dos 5 a 6 anos de idade.
Apesar de sabermos que a rinossinusite pode cursar com rinorria purulenta
anterior e/ou posterior, necessrio fazer um diagnstico diferencial com
outras patologias que apre-sentam este sintoma: adenoidite, rinite aguda epidmica,
rinite bacteriana, rinite crnica e corpos estranhos de cavidade nasal. A
durao da sintomatologia deve ser tambm valorizada uma vez que a sintomatologia
das rinites epidmicas (do resfriado comum e da gripe) costumam cessar aps
dez dias. A criana pode apresentar de 9 a 11 crises de resfriado comum e
gripe durante um ano, sendo que muitas destas podem evoluir para uma rinossinusite
bacteriana. O diagnstico de uma rinossinusite geralmente baseado em evidncias
clnicas e na durao desta sintomatologia. Segundo Wald, no curso de uma
IVAS viral, devemos suspeitar de uma infeco bacteriana sinusal quando a
sinto-matologia de um resfriado comum persistir por mais de dez dias, sem
evidncia de melhora, ou quando houver piora dos sintomas aps o quinto dia,
caracterizada por hipertermia elevada, rinorria purulenta abundante e obstruo
nasal de incio sbito, podendo haver associao com edema periorbitrio ou
dor facial. Todos os sintomas que podem aparecer na rinossinusite merecem
diagnstico diferencial com as outras patologias quais sejam: tosse, febre,
inapetncia, rinorria e cefalia. A dificuldade maior est em diferenciar
cada quadro, sendo que, para tal, o exame da cavidade nasal se torna imprescindvel
para se definir o diagnstico. A endoscopia nasal seria o melhor mtodo para
se avaliar a cavidade nasal, porm, uma mucosa nasal hiperemiada, secreo
nasal purulenta em meato mdio pode ser evidenciada at com o uso do otoscpio
acoplado ao espculo com o tamanho do dimetro do stio nasal.
Realizamos um estudo avaliando a sintoma-tologia de crianas que procuraram
dois servios: clnica de otorrinolaringologia e uma clnica peditrica. Utilizamos
uma ficha contendo todos os sintomas esperados de uma rinossinusite, baseando-se
em estudos anterio-res e nos citados na literatura. Todos os casos com diagnstico
de rinossinusite que eram baseados em quadro clnico e exame da cavidade nasal,
foram submetidos ao exame radiolgico pr e ps tratamento. Apesar de se conhecer
a variabilidade do exame radiolgico, consideramos como rinossinusite os espessa-mentos
de mucosa que ocupavam rea igual ou maior do que 50% dos seios paranasais,
os velamentos totais e a presena de nvel lquido. Para verificar a relao
entre freqncia de sintomas e a faixa etria, dividimos as crianas em trs
grupos: 18 meses at 24 meses (16 crianas), 2 a 6 anos (66 casos) e acima
de 6 anos (18 casos). Pudemos verificar que a febre foi de aparecimento comum
(50%) nos trs grupos, sendo que muitas crianas apresentaram a febre como
nico sintoma. Antecedente de IVAS foi muito comum nos trs grupos. Inapetncia
e tosse noturna associados ou isolados foram os sintomas mais comuns no primeiro
grupo. Nas crianas maiores do que 2 anos houve predomnio de tosse diurna
ou noturna e rinorria purulenta. A cefalia foi queixa de 21% das crianas
entre 2 e 6 anos e 33% das crianas maiores do que 6 anos. Febre a esclarecer,
inapetncia ou halitose aps um quadro prolongado de IVAS eram sintomas isolados
freqentes em qualquer dos grupos. A associao de sintomas mais freqente
foi: rinorria purulenta com obstruo nasal e com tosse, principalmente na
criana acima dos 4 anos.
Nossos achados confirmam a variabilidade dos sintomas e refora a necessidade
de se conhecer a gama de sintomatologia na rinossinusite da criana, considerando
o exame da cavidade nasal como chave para se fechar o diagnstico.
O exame radiolgico (radiografia simples de seios da face) na criana est
sujeito a erros de interpretao. Estudos realizados com crianas na vigncia
de IVAS, mesmo sem sintomas sugestivos de patologia sinusal demonstraram alteraes
radiogrficas. Espessamentos de mucosa podem ser confundidos com hipoplasias,
ou mesmo a presena de uma secreo espessa mucide sobre a mucosa dos seios
paranasais. Dependendo do posicionamento da criana (cabea colocada na posio
naso-mento um pouco mais fletida para trs), imagem da gordura das bochechas
pode dar a falsa impresso de velamento total dos seios maxilares.
O diagnstico ento firmado quando, alm dos sintomas que so muito variados
na rinossinusite da criana, encontramos os sinais caractersticos no exame
da cavidade nasal quais sejam: hiperemia e edema de mucosa, secreo purulenta
nos meatos mdios.
Para o diagnstico temos nos dias atuais a possibilidade de se utilizar a
tomografia computadorizada (TC) dos seios paranasais (coronal e axial). Este
exame nos informa de forma precisa sobre as alteraes anatmicas do complexo
stiomeatal. recomendado o uso deste exame nas rinossinusites de repetio
e nas complicaes aps rinossinusites. A TC, alm de encarecer o mtodo diagnstico,
est sujeito tambm a erros. Estudos realizados por Lusk demonstrou que pode
haver radiografias demonstrando espessamentos grandes em seios maxilares com
TC demonstrando seios maxilares totalmente aerados e vice-versa.
O tratamento clnico das rinossinusites visa agir nas bactrias, na mucosa
e nos fatores predisponentes. Mais de 70% das bactrias responsveis pelas
rinossinusites so os Streptococcus pneumoniae e o Haemophilus influenzae.
Na criana h maior prevalncia do Haemophilus influenzae do que no adulto.
Encontramos ainda em menor proporo as Moraxella catarrhalis e o Staphylococcus
aureus. A antibioticoterapia tem por alvo debelar primeiramente as duas bactrias
prevalentes e, para tal, como medicamento de primeira escolha, preconizamos
o uso da amoxicilina. Nos insucessos teraputicos com esta droga poderemos
lanar mo das amoxicilinas associadas ao cido clavulnico, cefalosporinas
de segunda gerao como o cefaclor, o axetil-cefuroxime, e o cefprozil, assim
como as cefalosporinas de terceira gerao quais sejam: cefopodoxima proxetil,
cefixime, cefetamet pivoxil. Os antimicrobianos do grupo dos novos macroldeos
podem tambm ser utilizados como a claritromicina, azitromicina e a roxitromicina.
Em casos de obstruo nasal muito intensa preconiza-se o uso de vaso constrictores
locais diludos e por curto tempo (no mximo 5 dias). Pode-se utilizar as
solues salinas hipertnicas de David Parsons (1000ml de gua fervida, 2
colheres das de sobremesa de sal marinho ou grosso, 1 colher das de sobremesa
de bicarbonato de sdio) 2 vezes ao dia, que atua diminuindo o edema do stio
de abertura dos seios paranasais e aumentando o batimento ciliar. Em crianas
muito importante investigar os fatores predisponentes, principalmente em
casos de recorrncia da infeco: hipertrofia adenoideana, desvios de septo
nasal, mucovisci-dose, deficincia imunolgica, discinesia ciliar, alergia
nasal, e outros fatores.
A criana com rinossinusite tem uma resposta melhor ao tratamento clnico
do que o adulto e, portanto, a rinossinusite crnica menos comum. Uma criana
em bom estado geral, na ausncia de comprometimento sistmico, raramente necessita
de procedimento cirrgico. Quando realizado o procedimento cirrgico, este
feito com muita cautela e de forma mais conservadora possvel.
As rinossinusites podem curar mesmo sem tratamento clnico. No entanto, devemos
lembrar que as crianas, devido a conformao anatmica, so mais sujeitas
s complicaes ps infeces e, assim sendo, recomenda-se tratar com antibioticoterapia
sempre que possvel. Das complicaes das rinossinusites podemos citar as
celulites periorbitrias, celulite orbitria, osteomielite de seio frontal,
maxilar, alm das complicaes graves como as intracranianas (meningite, abscesso
cerebral e tromboflebite do seio cavernoso).
Obs. Recomendamos a leitura do I Consenso Brasileiro sobre Rinossinusite
Recife-PE-1998, publicado no suplemento n9 da Revista Brasileira de Otorrinolaringologia
1999, 65(3). Participamos deste consenso e as bibliografias a serem consultadas
esto referidas nesta publicao.
NEFROLOGIA
Infeco Urinria
Joo Toms de Abreu Carvalhes
CONSIDERAES GERAIS
A infeco do trato urinrio (ITU) pode resultar em ampla variao de aspectos
clnicos.
De um lado, a infeco pode ser totalmente assintomtica e reconhecida apenas
pelo encontro de bactrias na urina, isto , bacteriria a qual, assintomtica,
pode refletir multiplicao restrita de bactrias da mucosa da bexiga ou na
urina visical. De modo geral, essa forma de infeco representaria colonizao
do trato urinrio baixo, semelhana do que ocorre com a flora normal de
outros rgos ou sistemas como, por exemplo, o trato respiratrio alto, a
pele e pores inferiores do trato gastrointestinal, conceito este muito pouco
aceito.
De maneira oposta, a bactria pode penetrar em camadas profundas da bexiga
levando a alteraes tais como febre, mices imperiosas e freqentes, disria
etc, isto , o quadro clnico clssico da cistite. Numa pequena parcela de
pacientes, a bactria localizada na bexiga pode ter acesso ao trato urinrio
alto, invadindo a mucosa da plvis e chegando ao tecido intersticial de um
ou de ambos os rins, determinando a pielonefrite aguda em geral. Tais pacientes
mostram-se gravemente doentes, com picos elevados de temperatura, leo paraltico
(chega a simular abdmen agudo), dores lombares e no trajeto ureteral, toxemia
e demais evidncias do comprometimento do estado geral decorrentes de infeco.
Em particular, na criana em seus primeiros meses de vida, freqente a associao
de ictercia, sugerindo colangite.
A pielonefrite aguda segue alguma interferncia do fluxo normal de urina,
interferncia esta que decorre de clculos renais, tumores e malformaes
congnitas que determinam obstruo, ou do refluxo vesicouretral, que tambm
pode ser primrio.
As alteraes histopatolgicas da pielonefrite aguda so relativamente bem
definidas. H variao muito grande na quantidade de clulas inflamatrias,
predominando sempre o nmero de neutrfilos segmentados que, invadindo a luz
tubular, do origem aos cilindros leucoci-trios. Em algumas situaes demonstram-se
bactrias na urina colhida a este nvel, ou cultura de tecido renal afetado.
Na pielonefrite crnica (PNC), as alteraes histopatolgicas evidenciam menor
quantidade de clulas inflamatrias, tbulos obstrudos e dilatados contendo
em seu interior material hialino de consistncia coloidal o chamado aspecto
de tiroidizao renal, tido por vrios autores como patognomnico desta patologia.
No entanto, existem situaes que ainda neces-sitam maiores explicaes. Uma
delas a perda, na PNC, de qualquer evidncia de infeco. A urina pode no
apresentar sedimento alterado nem bactrias e a nica sugesto de alterao
renal a persistncia de proteinria. Em decor-rncia disso, h os que acreditam
que a infeco por si s no teria participao efetiva na gnese da leso
renal. Isto , reforada pelo fato de que muitas alteraes histopatolgicas
encontradas na PNC podem ser verificadas em outros tipos de agresses renais,
sem origem infecciosa, como a nefropatia intersticial determinada por analgsicos,
isquemia secundria nefrosclerose progressiva e rejeio crnica de transplantes,
todas elas com infiltrado mononuclear peritu-bular, dilatao dos tbulos,
inclusive com tiroidizao, fibrose e cicatrizes.
Por estas razes, novos esforos devem ser feitos no sentido de se determinar
como ocorre a leso renal na PNC.
Vrios estudos epidemiolgicos, usando bacteriria significante como critrio
diagns-tico de ITU, tm demostrando que esta infeco pode comear em perodos
iniciais entre pr-escolares e escolares est em torno de 1% a 2% com predominncia
no sexo feminino, existindo estatsticas que do uma relao de at 30:1,
independentemente da intensidade do quadro infeccioso. J em recm-nascidos
h predomnio do sexo masculino e a incidncia chega a 6% dos R/N hospitalizados.
A grande maioria dos casos de ITU causada por bactrias da flora intestinal
normal. Aproximadamente 90% de todas as infeces verificadas em indivduos
sem obstrues das vias urinrias e no hospitalizados so causados p E.
coli. Iutras bactrias Gram-negativas, bem como enterococos fecais ( Sterpcoccus
faecalis) tambm apresentam capacidade de invadir o trato urinrio. No existe
ainda evidncia, todavia, da participao de bactrias anaerbicas na gnese
da ITU. No setor de nefrologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista
de Medicina UNIFEP, em levantamento realizado em crianas com e sem malformaes
de vias urinrias, e sem distino de faixa etria (crianas at 12 anos),
tivemos os resultados expostos na Tabela 1.
Tabela 1 - Infeco Urinria - Etiologia
| Agente Etiolgico | N | % |
| E. Coli | 108 | 54 |
| Proteus | 52 | 26 |
| Klebsiella | 15 | 7,5 |
| Enterobacter | 14 | 7,0 |
| Providncia | 5 | 2,5 |
| S. Aureus | 3 | 1,5 |
| Pseudomonas | 3 | 1,5 |
| Total | 200 | 100 |
Em relao E. coli determinando ITU, algumas consideraes devem ser feitas:
recentemente vrios autores verificaram que alguns poucos sorotipos (de um
total aproximado de 145) causam infeco urinria. Tais estudos estabeleceram
que at 60% dos casos de ITU foram causado pelos sorotipos 01, 02, 04, 06,
07, 11, 15, 62, 75 que passaram, ento, a ser designados por bactrias ou
cepas uropa-tognicas. Tambm a caracterizao de algumas bactrias, graas
a seus antgenos O e K, estabelece a ntima relao da flora intestinal e
as causadoras de ITU. Resta ainda ressaltar que aquelas bactrias coliformes
possuidoras de antgeno K tambm possuem as chamadas fimbrias ou pili que
lhes conferem maior mobilidade, e da, possivelmente, melhor capacidade de
ascenso no trato urinrio, e tambm maior capacidade de se fixar a determinados
pontos receptores existentes nas clulas do urotlio. Alm disso, existem
fatores que conferem a tais sorotipos maior infectividade. Isto se baseia
no fato de que outras infeces (meningites, septicemias, otites etc.) so,
de maneira prevalecente, causada por E. coli destes sorotipos.
ainda importante fazer referncia possibilidade de infeco urinria pelas
chamadas formas L, forma de resistncia bacteriana que em determinadas situaes
podem readquirir sua parede, revertendo forma original com capacidade infectante.
Sua participao, em termos de morbidade, seria nos casos de infeco urinria
crnica com longo tempo de antibioticoterapia. Como neces-sitam de meio hipertnico
para crescimento, raramente so diagnosticadas por meio dos mtodos rotineiros
de comprovao laboratorial de infeco urinria.
Por outro lado, outros tipos de bactrias como Pseudomonas, Klebsiella, Serratia
podem ser diagnosticadas como causas de ITU em indivduos hospitalizados.
Nesta situao excepcional, em geral existe associao entre infeco e procedimentos
mdicos invasivos, tais como sondagem vesical e cirurgias urolgicas.
VIAS DE INFECO SINTOMATOLOGIA
Entre os estudiosos do assunto, prevalece a opinio de que vrios eventos
ocorrem e, entre eles, ressaltam a importncia da colonizao do perneo,
do meato periuretral, da uretra anterior e, evidentemente, da vagina e intrito
vaginal, sempre em decorrncia de fatores tais como atividade sexual, m higiene
e incontinncia fecal, patolgica ou no, na gnese da ITU.
A ocorrncia de ITU entre recm-nascidos e lactentes, ainda sem controle esfincteriano,
nada mais reflete do que esta contaminao do perneo. Estudos em algumas
meninas revelam que a colonizao do vestbulo e passagens vaginais baixas
de sorotipos especficos de E. coli ocorrem antes do desenvolvimento de ITU
por idnticos sorotipos. Alm disso, sempre bom lembrar que a E. coli constituiu-se
numa minoria entre os represen-tantes da flora intestinal, onde superada
por grande nmero de outras bactrias e espcies (por exemplo, bactrias anaerbicas).
Sabe-se muito pouco sobre os eventos especficos pelos quais as bactrias
migram no sentido da uretra para a bexiga e como elas so capazes de produzir
infeco da mucosa vesical cujas clulas, por sua vez, teriam a capacidade
de fagocitose. A mucosa da bexiga tambm teria capacidade de sintetizar imunoglobulinas
que apresentariam mecanismos especficos para sua eliminao na urina. Portanto,
a bexiga poderia atuar como um rgo imune, com capacidade de resposta humoral
e, se assim for, a bactria que provoca ITU deve ter fatores de virulncia
que lhe confere vantagem na patogenia.
Estudos experimentais mostram que bactrias possuidoras de flagelos, e portanto
com capacidade de movimentao, podem apresen-tar movimento contra-corrente.
Assim, em termos de probabilidade, determinariam pielonefrites aquelas bactrias
com maior mobilidade, como por exemplo, as E. coli que apresentam os pili
ou fimbrias.
A possibilidade de infeco por via hemato-gnica nem sempre considerada,
somente tendo valor naqueles casos de infeco por estafilococos, estreptococos
e outras bactrias que habitualmente no causam infeco no trato urinrio
baixo. No entanto, vrios bices surgem a este mecanismo, pois algumas estruturas
renais clulas mesangiais apre-sentam grande capacidade de fagocitose.
Assim, haveria necessidade de elevado nmero de bactrias para os microorganismos
vencerem o mesngio, atingirem o interstcio medular renal e determinarem
a pielonefrite. No entanto, considerada por muitos como a principal via
de contaminao do trato urinrio no perodo neonatal, talvez, entre outros
mecanismos, por menor atividade mesangial nesta faixa etria, alm da freqente
associao com malformao das vias excretoras, principalmente em lacten-tes
jovens e neonatos do sexo masculino.
No perodo neonatal, a infeco se d, como j foi dito, em grande parte,
por via hematognica. Nesta poca da vida, cerca de 30% apresentam sinais
de comprometimento do SNC (convulses, principalmente). Podem apresentar hipertermia
ou hipotermia, vmitos, diarria, cianose e toxemia.
A prevalncia do sexo masculino, talvez pela menor imunidade e pela maior
quantidade de malformaes.
Tambm nos lactentes so raros os casos que apresentam sintomatologia sugestiva
de comprometimento do trato urinrio, predomi-nando sintomas gerais. Assim
observa-se, com freqncia, retardo de desenvolvimento pondero-estrutural,
diarria ou obstipao nuseas e vmitos, febre de origem indeterminada. Em
relao sintomatologia urinria, deve-se chamar a ateno para a reteno
urinria.
A partir do segundo ano de vida ou, mais especificamente, a partir do momento
em que j ocorre controle esfincteriano vesical, mais de 70% das crianas
afetadas tero infeco urinria sintomtica, isto , prevalecer febre, enurese,
disria e polaciria.
Dentro de nossa concepo, no tem valor, nem mesmo sentido, todo o esforo
que se faz em distinguir infeco urinria (cistite) e infeco alta (pielonefrote).
Isto porque se uma pode ser conseqncia da outra, ambas devem ser tratadas
de maneira vigorosa e eficaz, at a esterilizao da urina.
DIAGNSTICO LABORATORIAL
Sempre feito pelo exame de urina. Geralmente h aspecto turvo, densidade
urinria baixa e protenria raramente maior do que 1g no volume de diurese
de 24 horas. No sedimento urinrio encontra-se leucocitria e/ou hematria;
em alguns casos pode-se encontrar hematria isolada, dificultando o diagnstico
diferencial com glomerulinefrites, vindo da a importncia da anlise morfolgica
destas hemcias, pois na ITU no se observa dimorfismo eritrocitrio. Os leuccitos
podem estar isolados e ntegros ou, mais freqentemente, agrupados e degenerados,
podendo formar cilindros.
No entanto, o simples encontro de leucocitria no faz diagnstico de ITU,
sendo fundamental, para tanto, a existncia de bacteriria. Portanto, imprescindvel
a realizao de urocultura. Aqui vale ressaltar a importncia das tcnicas
de coleta da urina para tal procedimento laboratorial. Assim, para maior segurana
diagnstica, desejvel que a semeadura seja feita em meio apropriado, o
mais rapidamente possvel. Apesar de ser praticamente isenta de riscos, quando
realizada por pessoa habilitada, a puno suprapbica deve ser reservada para
os casos excepcionais (perneo infectado, por exemplo).
Condenamos a prtica de sondagem vesical para coletas de urina para exames,
mesmo quando se trata de meninas.
ASSOCIAO COM MALFORMAES
Como ficou patente, qualquer alterao na dinmica urinria pode predispor
infeco. Assim, preconizamos o exame radiolgico em todas as crianas com
ITU. Deve-se fazer a ultra-sonografia de rins e vias excretoras e a uretrocistografia
miccional. Mais recentemente, com o advento dos radioistopos, possvel,
com menor carga radioativa, a realizao de mapeamento renal como dos nefrogramas
isotpicos.
A uretrocistografia miccional, que dever sempre ser feita quando a urina
j esteja estril, dar avaliao sobre a bexiga, sua forma, capacidade residual,
existncia de clculos e divertculos e, em especial, na criana, a presena
de refluxo vesicouretral, bem como a classificao pela sua intensidade.
A urografia excretora d informaes em relao ao nmero, forma, ao tamanho
e localizao dos rins, bem como os aspectos dos clices e a espessura cortical.
Tambm possvel fazer avaliao de pelves e ureteres.
A medicina nuclear d grandes informao morfolgicas e funcionais, inclusive
dos rins em separado.
TRATAMENTO
A escolha dos medicamentos a serem empregados no tratamento da ITU baseia-se
em estudos da sensibilidade in vitro das bactrias que, com maior freqncia,
deter-minam tais infeces. Nos casos graves, sempre que possvel, deve-se
estudar a capacidade bactericida do antibitico. No entanto, fica a dvida
da validade de se usar os discos para testes antibiograma, uma vez que tais
discos so elaborados com a concentrao que a droga testada atinge no sangue.
Portanto, quando utilizamos drogas de excreo renal, sua concentrao na
urina poder ser muito mais elevada e, assim, possuir atividade teraputica.
Isto tem acontecido no Hospital So Paulo, onde temos verificado que bactrias
gram negativas (principalmente E. coli), tidas como resistente ao uso da associao
trimetoprim e sulfa, acabam respondendo ao tratamento quando determinam ITU
em crianas. De qualquer forma, para o tratamento da ITU na infncia, devemos
seguir os preceitos da farmacodinmica e farmacocintica de toda antibioticoterapia.
Sendo assim, por exemplo, quando houver hiptese de pielonefrite, a droga
a ser utilizada dever atingir concentraes adequadas no plasma, no tecido
renal e na urina; evidentemente dever ser atuante no agente causal e, por
fim, no apresentar nefrotoxicicidade. Ainda exempli-ficando, em RN, seguindo
essa norma, as drogas que indicamos so as cefalosporinas, por serem menos
txicas do que os aminoglicosdeos.
Por outro lado, nos casos de tratamento conservador dos refluxos vsico-ureterais,
quando se tratar de profilaxia, poderemos utilizar quimioterpicos de ao
intracanalicular, como a nitro-furantona, trimentropin-sulfa, o cido nalidxico,
etc.
O importante manter o tratamento por tempo adequado, uma vez que j restou
provado que as vrias tentativas de tratamento curto da ITU, independente
da droga utilizada, no se mostram eficientes.
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